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Desenhar deus

Quando eu era bem pequeno e já podia segurar um lápis entre os dedos e rabiscar alguma coisa com algum sentido no papel, eu gostava de desenhar fantasmas. Desenhava-os para deixar de acreditar neles. Depois, ali, prontos, no papel, eu passava o dia inteiro mostrando-lhes a língua. Com Deus funcionava de outra forma. Eu queria desenhá-lo para acreditar nele. Depois que estivesse finalizado, eu olharia nos olhos dele e lhe faria um monte de perguntas. Essa era a ideia.
Naquela época eu pensava mesmo resolver tudo no desenho, assim como um incendiário acha que resolve tudo com fogo, ou um matemático, com equações. Desenhar fantasmas não era tão difícil, vai: era só rabiscar um lençol branco flutuando, depois dois círculos no que seria um rosto – seria porque fantasma não tem rosto – e escrever ao lado: “uuuuuuhhh”. Pronto, eis um fantasma. Pelo menos, o meu fantasma é assim. Mas, desenhar Deus, como seria isso? Por onde começaria? Pela cabeça, pelas pernas, pelos braços? Pera, e Deus tem braços e pernas? Sim, porque ele disse que criou o homem (o ser) a sua imagem e semelhança”. Então, é só pensar numa pessoa olhando-se no espelho. O reflexo dela é Deus, ou ao contrário, não importa, dá no mesmo. Então, Ele tem pernas sim, e vamos começar por elas. Mas nem todas as pernas são iguais. Têm umas grandes, outras pequenas, têm umas finas, também grossas. Há pés grandes, duros, há outros delicados, pequenos. Deus seria uma imagem única? Imagem esta que representaria todas as pessoas do mundo? Fiquei com o lápis parado no papel. Não ia, mas não desistia. Ora, não é assim, que algumas pessoas acreditam em Deus, não vão e nem desistem? pensei.
Fiquei parado porque já via que desenhar o criador não era uma coisa lá muito fácil. Se pelo menos tivesse uma foto. Se alguém tivesse pegado Deus de surpresa, entrando em algum lugar, saindo, ou tomando um café numa padaria. Eu tinha uma foto assim do meu avô. Pensei em desenhar o meu avô. Mas eu queria era desenhar o criador, não a sua criatura. E enquanto meu lápis estava ali parado, pensava ainda se Deus seria gordo, magro, alto, baixo? Teria algum tique? Gostava de roer as unhas, quem sabe, né? Ele tem responsabilidade demais, não? Claro que eu ainda não conhecia os desenhos de Michelangelo. Ah, e por falar nisso, tenho TOC, e aquele dedo de Deus que nunca toca o dedo de Adão me tira os nervos. Mas isso eu conto depois. Em outro momento. Só depois, eu iria entender que Deus era um homem que havia nascido velho, e que nunca morreria. Essa era a ideia. Mas Ele poderia morrer se todos deixassem de acreditar nele. Penso que o esquecimento é a pior morte. Mas isso foi bem depois. Eu ainda estava lá com o lápis que não saía do lugar nem que a vaca tossisse e depois limpasse os lábios melequentos com o guardanapo. Eu pensava se Deus cortava o cabelo toda semana como o meu pai fazia comigo. Se ele tinha as orelhas grandes como as minhas ou pequeninas como as da minha irmã caçula. Desenharia ele, enfim, sentado, em pé, como? Se sentado, onde? Numa cadeira, num trono, numa nuvem? Numa nuvem não, pois tinha o receio de ele despencar lá de cima e depois eu ter de prestar contas com a humanidade.
Nisso, notei que o lápis, por livre e espontânea vontade, riscou algo no papel. Pensei que era Deus agindo por mim, tentando, ele mesmo desenhar-se. O criador é vaidoso, sim? Perguntei-me já com medo de um castigo. No papel só havia um risco. Aquele que saiu contra a minha vontade ou por um milagre, sei lá. Não, aquilo não poderia ser Deus. E eu sabia lá o que era Deus? Ora, mas uma pessoa não pode caminhar por uma rua que nunca havia caminhado antes? Num vai, esta, dar em algum lugar? Enquanto pensava como desenhar o criador, desenhei oito fantasmas e rabisquei três vezes o meu avô, mas num ficou muito bom.
Quando voltei a Deus já não tinha mais vontade nem ideia nenhuma de como seguir ou recomeçar. Foi quando desisti. Sim. Mas o interessante é que passei a acreditar ainda mais no desenho dele que não consegui fazer. Ele era um não-desenho. E tornou-se ainda mais presente. Nunca mais quis desenhá-lo. Como alguém pode colocar tudo num só desenho? Não dá. A não ser que seja Deus o desenhista, aí sim.

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