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Filhos e Amantes - D. H. Lawrence (meus livros - resenhas)

Quando muito jovem li D. H. Lawrence não sabia ainda que ele era, durante um tempo, pelo menos, um dos prediletos de Henry Miller – outro escritor que logo se tornaria de cabeceira – e um dos escritores mais admirados por Clarice Lispector. – Talvez, só depois de Herman Hesse - Henry Miller chegou a esboçar um livro sobre Lawrence, mas acabou abandonando-o por achar que não conhecia mesmo o autor inglês. O que Miller quis dizer é que apesar de ter lido Lawrence a exaustão, este era imenso, tanto na obra quanto na vida. E ele era mesmo. Quem o lê pode perceber isso. Clarice também reconheceu essa imensidão e a registrou em um dos seus textos na antiga revista Senhor.
Essa semana, reli Lawrence. E não me refiro ao seu clássico, O amante de Lady Chatterley – atualmente, há um filme baseado no livro. Um filme horrível por sinal. Quer dizer, onde há ironia, paixão, ira, leveza, onde há ondas e mais ondas de sentimentos a ponto de sentirmos vontade, vez ou outra, de bater em Lawrence e logo em seguida pedir-lhe um beijo, coloraram pieguice, romance garapa, afetação, vaidade, beijo na boca e sussurros, ou seja, coisinhas para telespectador não dormir. Truque batidaço de Hollywood – (sei, esses parênteses foram mesmo exagerados), então, retomando, falo mesmo de "Filhos e Amantes", um livro de Lawrence que preciso, vez em quando, reler e reler para me sentir pulsando, para me sentir vivo, me sentir grato, me sentir mais.
Ah, mas preciso mesmo falar de Filhos e Amantes (Sons and lovers, 1912/13), terceiro livro, a obra prima do consagrado autor inglês? Se estamos levando em conta o universo da pesquisa, do estudo literário, dos leitores mais atentos, enfim, da academia, talvez não. Há coisa demais. Mas, preciso escrever por e para mim, sim, ponto. Isso porque, sempre após a leitura desse livro, fico atônito, perdido, desolado, partido. Nunca sei o que estou sentindo de verdade, nunca sei de qual lado puxo a corda, nunca sei por quem tomo partido. Se pelo personagem mais novo – dizem que é o Lawrence menino – Paul Morel, se pelo mais velho Willian, se pela burguesa Gertrude, a mãe que ama seus filhos acima de tudo, ou se até pelo rude e grandalhão, porém também sofredor, Walter Morel. Aquele que, com o coração despedaçado, chora no escuro, enquanto enxuga as lágrimas com as mãos calosas e as unhas carcomidas, manchadas.
Na minha primeira leitura, quando era ainda jovem, nunca me saiu da cabeça a cena de como o sonhador Willian voltou para casa. Oh, deus, precisei fechar o livro, e às lágrimas, dizer: “não Lawrence, não, não, não. Ele é apenas um sonhador. Ele apenas quer a sua pequena cota de mundo. Dê a ele, dê a ele, vamos, dê. Ele é apenas um rapaz, um menino. Nem chegou a dar o seu primeiro lance na vida que desponta. Não, não, não”.
Filhos e Amantes, na minha releitura, me causou o mesmo impacto da leitura. Me senti partido, violentado, invadido, e ao mesmo tempo cheio de amor. Li e reli e ainda acho um livro a frente. Não a frente do tempo de Lawrence, mas ainda hoje, muito à frente, muito além do futuro, deste. “Ao terminar a leitura fiquei ainda com aquela sensação de me ajoelhar num genuflexório tocando um punhal com a ponta dos dedos, ou querendo gritar dentro de uma igreja”. Isso foi o que escrevi quando tinha 14 anos e li o livro pela primeira vez. E é isso mesmo, e será isso sempre.
Clarice Lispector – escritora por quem sou apaixonado: pela escritora e pela mulher – em um dos seus textos usou estas palavras – literalmente – para se referir a Lawrence: “Lawrence escreve tão bem que nem parece escritor. Cada livro seu é o de um grande principiante, desses que nunca aprenderão nada mais, porque, começando por saber, perderam as chances menores. Lawrence faz com que os outros livros pareçam um grande esforço triste do pensamento procurando vida, como se fosse possível”. É isso, clara, Clarice. Lawrence é grande por ser principiante a cada novo livro. Pois só um principiante escolhe as palavras que muitos renegam por medo de respingar na roupa limpinha. Pois só um principiante tem a coragem de dizer aquilo que ninguém quer dizer. “A verdade que ninguém diz” como reforça Clarice. É, Lawrence não tem mesmo medo da verdade. Que bom. Grato, grato por essa releitura e pelas que ainda virão. Içar velas! vamos! vamos!

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