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Fora de série

Sempre gostei dos significados das palavras. Quando pronunciava uma delas divagava num mundo fabuloso. Uma palavra é uma andorinha que fez muitos verões. Se ela pudesse se espanar, assim como faz um cachorro travesso, espalharia o pó de muitas histórias. Uma palavra, mesmo pequenina, não cabe num dicionário. Está ali apenas o seu cartão de visita, a pontinha do iceberg. Ela viaja com os navegadores, conquista terras com os conquistadores, sobrevive aos perdedores.
Sigamos. Eu sou de Mossoró, a segunda cidade do Rio Grande do Norte (tem tudo pra ser a primeira, mas é mesmo a segunda. Se Câmara Cascudo tivesse nascido em Mossoró, pronto, seria a primeira) Mas vamos deixar essas intrigas antigas e divertidas pra lá. Vamos ao que interessa. Veja! ninguém sabe ao certo o que significa a palavra Mossoró. - você sabe, leitor? - Dizem alguns que vem dos primeiros indígenas, os Monxorós, já outros afirmam que o significado provém mesmo de uma árvore muito resistente e flexível, chamada Mororó, da qual os índios faziam os seus arcos. Em outros tempos, Mossoró era escrita com “ç”, seguindo as regras da gramática, com o tempo, os dois “ss” substituiram o "ç". Mas isso já é lá outra história.
Decidi escrever essa crônica porque estava conversando com um amigo, um pouco mais velho que eu, e num dado momento, ele disse: “cara, a moça é fora de série”. A expressão veio pra cima de mim, me fisgou de vez e logo estava afundando nela. Eu sabia o que ele estava dizendo, sim, aquilo era um elogio. A moça era espetacular, acima da média, fora do padrão. Essa palavra, vi depois, é oriunda do linguajar das primeiras linhas de produção dos automóveis, e todo carro produzido fora desse sistema, dessa linha de produção padrão, era um carro fora de série, o melhor, the best, porque era feito com mais esmero. Outros já dizem que eram os carros que saíam de linha e tornavam-se raros e, por isso, passavam a ser muito requisitados pelos ricos e sofisticados colecionadores. Foi o que encontrei navegando - ainda é navegando? - um pouco pela internet. Veja onde apenas uma palavra nos leva.
Em 2013, voltei a ouvir muito “pacas, joia e bacana”. Ora, pacas vivia na boca das minhas tias. Era a coqueluche à época. Joia também. Muito provavelmente, elas já as tinham ouvido de outros carnavais. Em relação à “bacana” já nem digo nada porque parece que ninguém consegue mesmo datá-la. Vem de longe. Tornou-se maior que o idioma. É atemporal. Algumas variantes linguísticas são como fênices na boca da meninada e da rapaziada da hora. Por essa e por outras, assim como costumo dizer aos inseguros iniciantes no mundo dos vinhos: “na dúvida, amigo, compre um chileno”, digo também, àqueles que não querem parecer fora do tempo: "amigo, mande um bacana”. Em contrapartida, nunca, nunca diga “mora”, nunca. Pois nem todo rei consegue convencer os seus súditos – leia-se fãs – Mora causa sempre muitas emoções – no pior sentido. Diga-se de passagem.
Meu amigo falava e falava. Efusivo, contava a sua história, que eu só pegava alguns trechos quando voltava à superfície daquele mar de significados no qual, encontrava-me mergulhado até o talo. Ouvi bem quando ele disse que ia desistir daquela outra “moça”, a futura“ex”, sim, que se achava a última bolacha do pacote – e lá vou eu de novo para o fundo – que ele foi salvo pelo gongo – palavra nascida no universo do pugilismo - porque estava “gamado” naquele xuxu fora de série. Que não ia mesmo deixar a antiga meter o bedelho no seu novo relacionamento. De repente, parou, chegou mais perto de mim, e disse que ia falar mais baixo porque as paredes têm ouvidos. Eu ouvia tudo aquilo e me sentia mesmo como alguém se afogando. Tentava subir a superfície, mas todas aquelas expressões antigas não me deixavam. “As paredes têm ouvidos” dizem que vem da Rainha Catarina Medicis, que furava as paredes para ouvir pessoas das quais suspeitava que seriam protestantes franceses. E eu ficava indo para o passado, voltando para o presente. Pensava em “crush, spoiler, sextou, shippar, cancelar, manda nudes, biscoiteiro” e misturava com “legal, chapa, cafona, broto, grilado, quadrado, transado” e ia cada vez mais para o fundo. Um desses dias falei para o rapaz do caixa do supermercado que o produto era mesmo um ‘barato”. Ele, assustado, disse, "não, é salgadinho". Logo pensei que deve haver um salgadinho salgadinho. Então, me veio à mente "a ruffles" que eu acho mesmo um salgadinho bem salgadinho, principalmente, porque não há mesmo batatas ali.
Bom, um amigo tem mesmo de ouvir o outro chorar as suas pitangas. Custe o que custar. Mas como eu tenho esse brother em alta conta e não conhecia essa moça fora de série sobre a qual ele tanto insistia em me falar, eu não botava mesmo a mão no fogo por esse xodó – não, eu não fui da Santa Inquisição quando eles queimavam a mão do possível herege para comprovar se ele era um bruxo ou não. Vem daí a expressão - O que achava mesmo é que esse negócio do meu amigo correr atrás de um rabo de saia não iria mesmo terminar em pizza e que, no final de tudo, seria ele a pagar o pato e não a moça espetacular que ele conhecera. Enquanto ele não pagava o pato, pagamos a conta. Meu amigo logo correu para a moça fora de série e eu tomei o meu caminho de casa, ansioso por abrir o meu dicionário etimológico da língua portuguesa, do Antônio Geraldo Cunha, 4ª edição, revista e atualizada de acordo com a nova ortografia. Isso sim é fora de série.

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