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Hoje estou com saudade

Clarice era bruxa. Evidentemente, no sentido empregado por Otto Lara Resende. Quando a autora, sua amiga, faleceu ele disse que ela era bruxa pelo modo peculiar como a obra se conectava com as “coisas do espírito”. Eu que sempre resisti a ela – já disse isso várias vezes aqui – fui dar uma olhadinha em um dos seus livros e deles nunca mais saí. É terreno aparentemente sólido, você acha que pode caminhar sobre, e até caminha, mas vai afundando e nem nota. É como entrar no mar: pode ficar parado e logo perde a direção das coisas. Fui só dar uma espiada em seu mundo vasto e vi outros tantos mundos que já nem sei qual deles habito. Quem sabe, habito todos ao mesmo tempo porque Clarice é quântica. No sentido mais profundo do termo. Falo das inúmeras possibilidades. Como no filme Interestelar que somos aquele que empurra o livro e aquele que o ver cair. A obra de Lispector é aquela intricada estrutura do universo onde o tempo e o espaço possuem referências diversas. Então, bruxa sim.
Mas não quero falar de Clarice. Não agora. Já falei tanto dela aqui e sei que falarei ainda mais. Quero falar de outra coisa, não mais simples. Hoje estou com saudade. Foi Clarice quem disse: – veja como é difícil largá-la – que “a saudade é fome. Vontade de comer a presença”. E sendo assim, a minha saudade chega sempre faminta como quem vem de longe, como se, feito um santo, estivesse fazendo jejum no deserto, como se há dias se alimentasse apenas de mel e insetos. Minha saudade quer devorar a presença como um bárbaro arrancando, as trancos, nacos de carne, tomando o vinho que transborda e escorre pelo peito.
É grande a mesa do banquete dos ausentes. E chegam sempre mais convivas, e você não foi convidado. Então, fica nesse afã de tocar o vazio, falar sem voz, roer palavras não-ditas. Quer entrar e sair de casas etéreas, percorrer estradas interditadas, cruzar pontes destruídas, atravessar rios secos, matas devastadas. Quer, quer, quer.
Quando fico assim, curvo-me sobre mim mesmo feito uma velha árvore reclamando as folhas perdidas, os frutos não nascidos, a terra seca que não a solta nem a nutre. A saudade é também essa terra seca. Nem sim nem não. Quando estou com saudade, sou uma nação sem hino, sem bandeira. Não há porta, porteira nem portal para lugar nenhum. A saudade é também isso, um lugar nenhum. Oh, em noites assim, não há lua nem estrelas, e alguns prédios que me olham parecem mesmo já ter passado por isso. Aquele prédio ali, que se esconde na sombra do próprio corpo, que cerra as pestanas num sono sem sono, que emudece em seu sem jeito de concreto, não estará também morrendo de saudade? Pode ser, pode ser. Quem sou eu pra dizer que não. A saudade acomete também os prédios, os postes, as ruas, as luzes, as casas, tudo. O que fazer afinal, com essa crupiê que nos dá as cartas e logo nos tira? Sei não. E nem de cartas eu gosto.

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