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Hominídeos & chatGPT

Há milhões de anos, os hominídeos ficaram de pé. Fizeram isso porque perceberam um imenso campo cercado de desafios. De lá para cá, o mundo mudou muito e continua mudando. Por isso, a necessidade constante de superar os obstáculos como consequência da inquietação humana e da necessidade natural de preservação da espécie. Afinal de contas, a grande preocupação, no atual século, não se reduz apenas a quebrar coquinhos e manter os olhos nos tigres-dentes-de-sabre.
Os hominídeos, agora de ternos bem cortados ou de cabelos desgrenhados e de língua para fora continuam buscando um jeito melhor de habitar um mundo cada vez mais veloz e desafiador. Sobre as novas descobertas, não é uma questão de ser contra ou a favor, é natural, afinal de contas, não foi essa inquietação que nos trouxe até aqui e que nos mantém até então? É certo que cometemos algumas atrocidades no curso da história, mas, não é o ser humano, segundo o conto de Voltaire, uma mescla de metais nobres e vulgares? Construímos bombas atômicas, deflagramos guerras, é certo, mas também conseguimos vacinas contra vírus letais, avançamos na cura do câncer e descobrimos galáxias distantes. Um só que lute por estas conquistas, e a humanidade estará a salvo. Penso.
Bom, vou tentar resumir porque a escrita é um mecanismo ardiloso e o conteúdo aqui dá muito pano pra manga. Eu precisaria de umas dez laudas para tentar, pelo menos, aperitivar o tema, mas o jornal não é meu, portanto, tenho de ser breve. Digo tudo isso porque em novembro de 2022 foi lançado o ChatGPT (Transformador Generativo Pré-Treinado). Segundo os especialistas, uma ferramenta capaz de se comunicar em linguagem natural. É de propriedade da empresa OpenAI (Sam Altman) com investimentos bilionários da Microsoft. Alcançou 1 milhão de usuários em apenas uma semana e 100 milhões só em janeiro de 2023. É só do que se fala no universo acadêmico, nas escolas, na internet, na mídia. A última nunca deu tanta importância a uma nova tecnologia até então.
O ChatGPT, esta máquina sensação do momento, é um verdadeiro achado: escreve elaborados artigos científicos, programas complexos de computador, poemas, resumos, sínteses, entrevistas com personagens reais e imaginários, além de ser uma desenhista contumaz. Foi aprovada no exame de licenciamento de medicina nos Estados Unidos e na prova de MBA da Escola de Negócios Wharton da Universidade da Pensilvânia. Os alunos das escolas estão num verdadeiro frisson. Encontraram, pensam, a lâmpada de Aladim para que o gênio, enfim, pense por eles.
O problema é que para todo Aquiles há também um Páris. O fato é que o robozinho já apresentou algumas falhas. E ulálá!: falhas de lógica simples. Para dar apenas um exemplo desses bugs, o GPT pode se tornar um mentiroso desenfreado quando tem de lidar com perguntas improváveis, com isso, criando referências, dados e situações implausíveis. E outra, vá devagar quando conversar com o danado, porque ele também pode se tornar agressivo, mal-educado e até hostil. Além de, por capricho, (coisa que também ensinamos a ele) disseminar desinformação, vírus letais, incitar à violência, acessar códigos nucleares, entre outras tantas coisas do gênero. Isso não é nenhum exagero de minha parte. São os especialistas mesmo que o dizem.
Referente ao que alguns incautos mais eufóricos falam por aí sobre a qualidade exemplar dos textos do robô, ficamos com a impressão, nós, leitores contumazes, de que são escritos que nem um Tom Wolfe, uma Joan Didion, e um James Baldwin, juntos, conseguiriam tamanha façanha. Deus do céu! – se é que existe um do inferno. Nesse quesito, eu como escritor, poeta, professor, músico e teimoso, o que posso pensar sobre isso é: "menos, menos". Eu, leitor apaixonado, costumo dizer que quando leio um poema, um romance, um conto, um grande texto, que seja, estou também, de alguma forma, lendo o seu criador: as suas angústias, seus conflitos, seus anseios e buscas. Procuro aquilo que eu chamo de “a marca da singularidade” no sentido mais criativo e humano. O que seriam das Iluminações, de Rimbaud sem as epifanias, catarses, e até loucuras do inquieto poeta? Que graça tem, diga, saber que um robô, aos 17 anos, desistiu da poesia e foi traficar armas na Abissínia? Com o poeta de Charleville isso é no mínimo muito interessante. Deve ser constrangedor ver um robô, com um olhar de louco, sentado à mesa de um bar, enchendo a cara de absinto, enquanto articula e escreve a sua obra prima. Com Paul Verlaine isso não é nada constrangedor, é no mínimo apaixonante. Nos Girassóis, entre outras telas, as pinceladas, aos tubos, carregam a alma inquieta e sedenta da vida e da arte pura e louca de Van Gogh. E tem graça saber que um robô, irado, cortou a própria orelha e a enviou a uma prostituta? E este mísero robô faria isso por uma paixão não correspondida? Acho que não. Van Gogh fez. Reflitamos.
O que mais assusta nisso tudo, acredito, não é nem a tão apregoada “Singularidade” (conceito utilizado para definir o momento em que as máquinas superam a capacidade humana), mas sim, a possibilidade dessas máquinas, criadas por humanos, seguirem aprendendo independentemente, de nós, a sua enorme capacidade e sede de atualização, o desconhecimento de até onde elas podem e devem ir.
Como disse no início, sobre as novas descobertas, não é uma questão de ser contra ou a favor, é natural, ok. Pau na máquina. Mas a questão é: sabemos mesmo o que estamos fazendo? temos realmente, total controle disso? há um plano B? ou num dado momento, contrariamente, ao que fizeram os nossos ancestrais, vamos ter de voltar a andar de quatro e, num gesto subserviente, reverenciar o ChatGPT, versão sei lá qual mais? (até então, estamos na versão GPT-4) Vamos devagar com o andor, amigos, porque o ChatGPT é de barro.

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