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Ler & escrever

Me contentaria apenas em ler. Ser um leitor amador, no sentido de amar a leitura, e não a ter como ofício. Apenas ler como quem toma banho de cachoeira, banho de chuva, de bica, sem querer saber o sentido da água. Apenas banhar-me numa cascata de letras, palavras, sentenças, parágrafos, capítulos, livros. Ser esse ser sozinho e tão povoado, longe e tão perto, tão seguro de mim até o fim da leitura, e depois o mundo, este onde o chão é chão, o céu é céu, mar é mar, e as pessoas são apenas as pessoas. Ler, apenas ler e estar nos mundos. Mas, e escrever? Ah, escrever. Talvez isso seja o avesso da roupa. Aquilo que toca a pele, que arrepia os poros, que incomoda, pinica, desassossega. Escrever talvez seja essa necessidade de mostrar o avesso das coisas. Escrever é angústia. É uma via de sofrimento com pequenos vislumbres, como dizia Woolf. Sim, é isso, penso. Não há como abrir histórias com um abridor de latas, um saca-rolhas, uma adaga, ou sei lá. Escrevemos histórias como um condenado orando antes da execução. Às vezes, como quem, com mãos trêmulas, rasga uma carta de amor, ou sei lá, abre um diagnóstico quando você já sabe o que vai encontrar ali. Ler é um incomodo gratificante, uma ruptura boa, essa busca constante por um autor com um mundo muito maior que o seu - e o que eu faria com um menor? - esse entorpecimento alerta. A vontade de sair de mim e perder-me para depois achar-me, voar, mesmo que com asas de cera. Escrever é essa adaga no cós, perfurando a virilha, a pedra no sapato, a unha encravada, a conta atrasada, o olhar que já não mais me pertence, o mundo que nos invade. A voz dela que não mais faz parte do coro, feito Nabokov sozinho na colina no fim da narrativa. Ler é o voo, escrever é a queda.

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