Uma vez, numa entrevista, me perguntaram como eu me sentia quando estava escrevendo. A palavra escrever já me angustia. Adiantei. A angústia de burilar aquilo que parece maior que você. Uma sensação de fardo e leveza. Como quem precisa tirar algo de cima do corpo para continuar a caminhada. Quando me perguntam isso, eu sempre paro e olho as paredes. Sempre alguma imagem me aparece feito uma imensa folha caindo de algum lugar. Então, me veio a cena das lavadeiras que eu tanto gostava de olhar lá no rio. O suor na testa e um canto lamentoso ou uma oração esperançosa nos lábios contraídos. As mãos como a vasculhar os seus destinos lavavam aquelas roupas com energia e sofreguidão. Esse era o peso. Já a leveza vinha quando elas abriam aqueles lençóis grávidos de ventos e os arremessavam sobre os varais que eu já não sabia se eram os lençóis ou elas, as lavadeiras, que voavam. E era tão lindo, tão lindo. Escrever é isso, eu disse, naquele momento: era a dureza da labuta daquelas lavadeiras, e depois, a leveza quando já tinham lavado tudo e agora só precisavam deixar secar ao vento, ao mundo, ao tempo...
Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...
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