Pular para o conteúdo principal

Tenho mesmo de crescer?

Um dia, meu pai entrou em casa e num jeito cerimonioso, disse-me: “ande, tome um banho, se arrume, se perfume, vamos dar uma volta”. Na hora eu não gostei nada daquilo, mas, calado, fiz o que ele me pediu. Entrei na Kombi. Eu estava mais cheiroso que o filho do barbeiro. Foi o que a minha mãe me disse. Meu pai deu uns dois espirros, algumas tossidas e completou: “Você deve ter acabado o perfume da sua mãe, não?”. Não respondi nada, porque não entendi nada. Só muito depois fui saber que a adolescência é um tempo que paira entre a economia e o excesso. O laconismo pela insegurança, e a prolixidade pelo...pela insegurança também.
Meu pai me apresentou a uma senhorinha, a dona Lilica. Depois disse a ela que voltaria em duas horas. Saiu de lá como se fosse o pai de outro filho. Nem olhou pra mim. Por um momento pensei que estava sendo abandonado. A senhorinha, sempre sorrindo, ajeitou o meu cabelo, e pediu-me que ficasse sentadinho que logo ela estaria de volta. Os homens, ali, chegavam apressados e sisudos e, depois, dos quartos, saíam moles e risonhos. Era um riso de cansaço e satisfação. Mais de satisfação. Pisavam leve, traziam gestos contidos, abriam as carteiras como se, dali de dentro, pudessem puxar a solução da vida. Iam embora ligeiros feito cinderelas correndo do desencanto.
Lilica voltou. Agora vinha acompanhada de uma menina que achei mais triste que bonita. Depois se foi. Ficamos ali, eu e a menina, numa mudez de assustar mudo, num esbarrar de olhos sem ver, num sem lugar para colocar as mãos. Mas as palavras foram feitas para os discursos, para a apresentação das teorias complicadas, para as grandes argumentações, as conversações, e até para os solilóquios mais tagarelas. Quer dizer, naquele mundo fabuloso, à meia-luz, as palavras não serviam lá para muita coisa. Ali, os gestos, as decisões, as atitudes eram o que realmente contavam. Naquele lugar, ninguém precisava seduzir ninguém. No universo de Lilica, era o que parecia, só existia uma palavra: o sim. Mas, às vezes, era até melhor nem falar.
A menina, num gesto doce e preciso, segurou a minha mão, me olhou numa expressão tímida e decidida, depois me arrastou como se fosse fugir do mundo e tivesse decidido me levar junto. Por que eu? Poderia perguntar, mas me deixei arrastar, talvez, porque, de alguma forma, eu quisesse saber o tamanho do mundo. Sei lá. Afinal de contas eu estava mesmo na fase do sei lá. Isso resolvia tudo.
Ela estava no quarto, mas o quarto não estava nela. Era como se convivesse com alguém que logo teria de abandonar. Uma contingência de dois metros por dois metros com solidão espalhada por todos os cantos. Haveria algo mais solitário do que aquele calço sob uma das pernas daquela cama triste? Sim, aquela cama que conhecia tanta gente e ao mesmo tempo ninguém? Talvez por isso mesmo fosse tão solitária.
Não me conheci, ali, naquele espelho também tão sozinho. Por aqueles tempos meu corpo insistia em me trair. Um dia eu estava assim, no outro, de outra maneira: braços e pernas longos, joelhos enormes, a cabeça ainda mais, ombros tortos como se já quisessem desistir da luta existencial. A barriga feito um náufrago. Ela me contou parte da vida que levava. Penso que, em alguns momentos, baixou a voz, e até soluçou, não tenho certeza. Onde entra o amor nisso tudo? Perguntei-me. Era uma pergunta muito complicada para um menino, sim, mas tudo aquilo doía pra valer. Era como vestir a vida do outro. Assim como quando alguém nos empresta uns sapatos apertados e estes dilaceram os nosso pés. O amor era aquilo, então. Aquele quarto e aquela dor? Não seria melhor que eu continuasse a bater figurinhas, soltar peão, pipa, a jogar bola de gude? Sei lá.
Meu pai veio me buscar e me olhou de um jeito diferente. Lilica também me olhou assim. Toquei o meu rosto, olhei minha roupa, conferi meus sapatos. O que havia mesmo mudado? Perguntei-me em meu espanto mais íntimo. Penso que a única coisa que mudou em mim foi a dura descoberta de que o mundo, na medida em que vamos crescendo, torna-se mais e mais complicado e triste. Só isso.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

obrigado, António Lobo Antunes!

Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...

a velha casa II

O jardim onde, nas brincadeiras, eu me escondia detrás das plantas espinhentas. Nas minhas primeiras incursões etílicas da juventude, eu tinha de pular o muro para que o portão, com seu incurável canto em falsete, não me denunciasse e meu pai se levantasse em seu arrastado de sono e fúria. A rua silenciosa, o apito do vigia, o Caravelo, mais lento que o andador da minha vó, prestes a cair sobre nós, ali, sob cobertores cheirando a amaciante e ferro de passar. Depois de rezar, em vez de dizer amém, eu dizia: “não amanheça, não amanheça”. Os dois lados escuros da casa – as lâmpadas sempre queimavam - que iam dar no quintal. Lá, a goiabeira onde chorei e sonhei e vi, dias sem fim, a menina sair do banho. O tilintar de pratos e copos dos vizinhos e a sensação de que dentro da noite eu estava protegido do mundo. Sobre a geladeira, o sarcástico pinguim que sabia mais de nós do que nós mesmos. Ali, em cima da velha cônsul asmática, ria a rodo dos nossos desencontros. A minha irmã sonâmbul...

a alça fria do peso da sua ausência

Quando meu irmão faleceu, não fui ao enterro. Adianto que não estou a justificar nada – e isso se justifica? -, mas é que meu pai havia morrido alguns meses antes e não vi mesmo força nenhuma para outra empreitada do nível ou pior. O que dói na morte não é somente a perda. Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, morremos. É um acordo tácito, ou seja, antes de nascermos, não nos é apresentado um contrato no qual está escrito: “você vai nascer, passar um tempo – sabemos lá quanto – depois você morre. Assine aqui embaixo”. No curso da nossa vida, acabamos aceitando a ideia – aceitamos? – como um enfermo, uma hora, aceita a sua moléstia. O que machuca mesmo, e é aqui que a chapa esquenta, é a forma como a indesejada das gentes, como Bandeira gostava de denominá-la, tira-nos pessoas queridas. Melhor dizer nos arranca, sim? Porque é isso que ela faz. Lembro-me do meu pai, homem de voz de martelo de Thor com a qual até a casa se assustava. Mas era doce que nem os picolés de castanha da minha ...