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Triângulo da Tristeza - resenha crítica

Triângulo da Tristeza (Triangle of Sadness), começando pelo título, é uma referência à nossa “glabela”. Tá, ficou ainda mais complicado, mas essa é a ideia, não vou dar de bandeja, estragar a coisa, então, pesquisem. O diretor e roteirista, Ruben Östlund tem dessas: buscar a atenção do coelhinho com uma simples cenoura de plástico. O que ele quer mesmo e sabe que vai conseguir é fazer você mexer muito a glabela durante à exibição do filme. Pelo menos é isso que nos faz pensar um dos personagens logo no início da película. Eu tenho lá as minhas teorias.
Resolvido isso, posso também dizer que apesar de não tirarmos os olhos da tela, o já premiado filme de Östlund, pretende, mas não realiza. Então, por que mantemos os olhos na tela? Primeiro, acredito, pelos personagens. Alguns bem interessantes. O personagem Dimitry (Zilatko Buric) foi o que mais me cativou. Ele aparece em dois dos três atos nos quais o filme é dividido. Ele é um contrapeso na sisuda e chata importância que a elite tenta sustentar na maior parte das cenas. Ele sabe rir de si mesmo. Vale muito destacar o embate ébrio, inútil, porém, engraçado, entre ele, e o também irônico, e já sem saco para essas coisas enfadonhas de cruzeiros para ricos, o capitão Thomas (Woody Harrelson). Este, um socialista que não sabe o que está fazendo num iate de 250 milhões de dólares, e o russo, um anticomunista roxo. Começa, então, uma troca de máximas, algumas delas retiradas da internet, ali, na hora. Dimitry entra com essa - ele pergunta e ele mesmo responde - : “Como reconhecer um comunista? É alguém que lê Marx e Lênin. E como reconhecer um anticomunista? É alguém que entende Marx e Lênin”. Enquanto Dimitry ri, o capitão rebate com a seguinte sentença: “o último capitalista na forca vai ser o que vende a corda”. E entre doses e mais doses de uísque. por aí vai. Nesse nível.
Então, outro motivo pelo qual acho que não desgrudamos mesmo os olhos da tela é a mescla bizarra do luxo, do banal, do fútil, e até do escatológico – é possível? na pergunta é que tá o grande barato – além da angústia e do silêncio pesado, recursos que Östlund já havia utilizado em Força Maior, na cena inicial, por sinal. Na cena que abre o Triângulo, um casal de modelos, jovens e bonitos, Yaya e Carl (Charlbi Dean e Harris Dickinson. Vale lembrar que Charlbi não compareceu à premiação do Oscar de 2023, pois faleceu de Sepse, em agosto de 2022, aos 32 anos) discute por uma conta de um jantar em um restaurante muito caro. Em frases curtas, dinâmicas, envoltas em silêncios longos e angustiantes, o diretor já nos adianta um dos pontos propostos na obra: o conflito de gênero. Já começa bem.
Mas vamos lá: mesmo com esses suportes, até inusitados, o filme não realiza porque apesar de as cenas deixarem sempre a possibilidade de acontecer algo que vai mexer com a nossa glabela - e esperamos mesmo por isso - o roteiro (premiado com o Oscar 2023 por melhor roteiro original) em alguns momentos, parece engatinhar e até mesmo desandar. Quando pensamos que a coisa vai para um lado, na verdade está indo para o outro, perdendo assim, acredito, a unidade, o ritmo, e a tensão dramática contemplados na cena de abertura. Me pareceu que eu estava assistindo a Match Point, e após a metade, alguém mudou o canal para O Senhor das Moscas, versão adulta. Sei lá.
Mais um motivo? Sobre o tema, então: “uma crítica ácida à superficialidade da classe rica, dominante, suas hipocrisias, absurdos e conflitos” – o diretor do filme costuma argumentar que a elite é tão presa no próprio mundo, que talvez nem um choque de realidade seja capaz de despertar um pouco de noção nessas pessoas - enfim, este tema, seria muito interessante, se tivesse sido abordado há alguns poucos anos. Pelo simples fato de que o próprio Ruben já o tinha abordado em The Square - A Arte da Discórdia. Além desse, White Lotus, Casamento Sangrento, Parasita, anos antes, esmiuçaram bem a coisa. E claro, inúmeras séries ácidas que já brincam com isso há um tempinho, né? Mas, isso ou aquilo, Hollywood sabe que ainda pode glosar e fazer muita grana com esse mote de tirar um sarro pesado com a elite cabeça-dura.
O ápice do filme, acredito, é a cena do jantar com o capitão do iate. A posição inclinada da câmera já nos leva a dar algumas meneadas de cabeça. Além disso, nessa noite, o mar não está lá de muito bom humor. Uma ou duas taças, uma garrafa, já rolam pelo chão como se estivessem brincando antes da chegada dos ricaços convivas. Depois, um carrinho de camareira espatifa-se na parede de um dos corredores. Tudo isso e mais um pouco são apenas o preâmbulo da epopeia digestiva.
O final não é surreal, pelo contrário, é realíssimo, tem tudo a ver com a falta de traquejo das figurinhas incompetentes ali, na ilha. Nos remetem mesmo à abelhas afogando-se no próprio favo de mel. Ganhar dinheiro parece ser a única coisa que sabem fazer na vida e qualquer outro sinal que não tenha a ver como isso, vai passar batido. Bom, eu gostei do final. E em relação a este, não esperem mesmo um desfecho, uma conclusão, uma amarração de pontas. Östlund é um desses roteiristas/autores/diretores – me vieram à mente Haneke, e Michel Franco – que apenas sugerem, mas quem finaliza mesmo é o espectador.
Bom, o filme de Ruben Östlund abocanhou a Palma de Ouro de 2022, o Oscar de 2023 e com certeza vai abocanhar outros tantos até perder-se no universo escuro do esquecimento. Então, diferentemente dos seus dois personagens no início do filme, ele não vai precisar se preocupar com quem vai pagar a conta, porque, muito provavelmente, ela já está paga. O filme pode não ser extraordinário – pra mim, valeu muito a pena - mas que, economicamente, já começou bem, começou. Com isso, penso que Östlund já pode relaxar a sua glabela, ou melhor, o seu triângulo da tristeza. É isso.
Triângulo da Tristeza
(Triangle of Sadness)
2022
Estados Unidos
16 anos
2h27 min
Prime Video

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