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As lojinhas de consertos

Sou do tipo saudosista. Tenho saudade até do que não existiu. Ora, eu invento-o. Naqueles tempos, eu dizia: “Mãe, a senhora viu aquele meu casaco de lona, de botões dourados, com vários bolsos?”. No que ela respondia: “Você nunca teve esse casaco”. Eu não estava nem aí para a roupa. O que eu queria mesmo era sentir saudade. Porque o saudosista é uma verdadeira máquina de fazer saudade.
Se eu escrevesse aqui todas as coisas das quais sinto saudade, elas tomariam todo o espaço que tenho para escrever a minha crônica e, de quebra, o texto ficaria sacal, se é que já não está. Bom, para citar apenas uma delas, por esses dias, lembrei-me das lojinhas de consertos. Antigamente as coisas eram feitas pra durar. E pra dar ainda mais vida a elas, em pouco tempo, os donos dessas lojinhas de suporte aprendiam como funcionava determinado eletrodoméstico recém-lançado, ou qualquer uma das gerigonças que os americanos estavam vendendo a rodo para o mundo todo.
Houve uma época em que se consertava tudo: ventilador, liquidificador, enceradeira, torradeira, máquina de lavar, de enxaguar, relógio, joia, rádio, radiola, tevê, sapato, roupa, e até brinquedo, entre outras coisas. Lembro-me do meu pai enviando para o conserto a boneca amiguinha, da minha irmã mais velha, porque uma perna não estava mais mexendo, e um olho tinha caído como se a boneca estivesse com algum problema nervoso na pálpebra. Cheguei a me perguntar se as bonecas também ficavam doentes. E não é que o senhorzinho de suspensório, gordinho, baixinho, careca, risonho, todo feliz, consertou a boneca?
Quando os relógios em casa não funcionavam mais, meu pai juntava tudo e me pedia pra levar para o relojoeiro. Voltavam todos felizes e tiquetaqueando. Quando eu via o relojoeiro trabalhando naquelas coisinhas mínimas, tudo espalhado pela mesa, não acreditava mesmo que elas voltariam a funcionar. Mas quando, num encaixe estalado e perfeito, ele fechava aqueles troços, pronto: "Fiat as Horas". Ele logo ria e me dizia o preço. Eu pedia pra pendurar na conta do meu pai. Havia isso também, pendurar na conta. Dizem que a felicidade de um povo de uma determinada nação é medida pela confiança que um cidadão tem no outro. Acho que éramos mais felizes, então.
Meu pai comprou uma enceradeira pra minha mãe. No primeiro mês, aquela coisa pesada apresentou um defeito simples: não encerava. O motor havia pifado. “Como assim?” Minha mãe perguntava. “não tem nem um mês”. Reforçava. Ela só quebrou porque a minha irmã do meio encerava a casa rodando em cima da geringonça. Ficavam as duas dançando pela casa numa festa sem música. Ela ria. E penso que até a enceradeira gostava da coisa. Foi pro conserto e voltou como nova. Mas minha irmã não se aguentava e subia nela. Então...
Com o tempo, notei que as lojinhas de consertos foram desaparecendo. Vi o senhorzinho de suspensório num estado de desânimo tremendo e acredito que foi isso que o levou para o túmulo. Antes disso, ele dizia: “Ora, como podemos concorrer com essa onda de produtos descartáveis? O bom é comprar, usar por um tempo, depois jogar fora e comprar outro. Mandar consertar agora é coisa de pobre. É o que dizem. Com o lixo dos americanos dá pra gente montar uma loja inteira. Eles não compram as coisas, mas sim, a novidade, o status. Quando algo quebrava, as pessoas ficavam chateadas. Hoje, se quebrar, é uma alegria. Ah, já era tempo, durou além da conta. Preciso de um novo. Como assim? Ora, eu conserto". Dizia em seu desânimo.
Vou ver se aqui em casa tem alguma coisa quebrada. Deve ter. Hoje elas quebram por conta própria. Se não tiver, eu a invento. Ora, mas onde eu vou mandar consertar se não existem mais lojinhas de consertos. Não importa, eu procuro, e vou achar, porque sei que eu sou um grandessíssimo de um saudosista, mas sei também que não sou o único. Algum senhorzinho, sentado lá no fundo escuro da sua lojinha, deve estar me esperando. Sim, um senhorzinho de suspensório, gordinho, baixinho, careca. E ele ficará bem feliz.

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