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Strip-tease literário

Escrever crônicas é de alguma forma se expor. Quando escrevemos contos ou romances nos revelamos em parte. Neles há um narrador, que não necessariamente, é o autor. Tá, mas tem essa coisa de madame Bovary c’est moi, não? Sim, mas é verdade também que Flaubert não era pueril, nem gostava de romances água-com-açúcar, muito menos morreu muito jovem e de boca aberta, numa cama velha, sob os cuidados de um marido traído. Talvez o autor francês tenha dito isso para desconversar, assim, como Faulkner afirmou que fazia apenas por dinheiro quando foi questionado sobre o que o motivava a escrever.
É evidente que o cronista também inventa. Afinal, ele não é de todo besta. Não acredito piamente em tudo que disse Rubem Braga, mas não posso afirmar que ele não gostava de passarinhos. Ora, ele diz isso em pelo menos metade de suas crônicas. Seria desnecessário dizer e dizer e dizer, não? Alguém disse uma vez que se uma narrativa começa com alguém pendurando uma arma na parede, uma hora ele vai ter de usar essa arma, seja para matar alguém ou mesmo para se matar. Do contrário, pra que contar que tem alguém ali pendurando uma arma? Ou que se algum personagem tosse duas ou três vezes num determinado capítulo, e permanece tossindo nos capítulos posteriores, seja de um romance ou de um conto, uma hora, esse personagem, vai ficar muito doente ou no mínimo vai ao médico para lhe solicitar um remédio que ponha um fim, ou pelo menos amenize, a tosse chata. Do contrário, por que a tosse? São os indícios, os vestígios. E estes são imprescindíveis àquilo que pretendemos contar. Os inúmeros passarinhos são os indícios, os vestígios do amor de Braga por eles.
Nas crônicas há também um narrador, sim, claro, mas contrariamente aos romances, aos contos, na primeira, o cronista não pode dizer que a culpa, o preconceito, o erro são do narrador. Quando um cronista pisa na bola, quem é demitido é o autor e não o narrador, entende? Já Philip Roth, por sentir-se incomodado, ter saído da sua cidade porque os leitores confundiram o autor com o Alexander Portnoy é demais, não? Digo, é injusto, sim? Porque Roth não é mesmo Portnoy. Tá, mas vamos dizer que Alexander era o alter ego de Philip. Isso os aproxima mais, certo? Mais ou menos. Não os aproxima porque o termo, com origem no latim, significa “Outro eu”, e os aproxima sim, porque Cícero, lá no século I, cunhou a expressão para se referir a um amigo ou alguém muito próximo, e no qual depositamos nossa total confiança. Sendo assim, podemos dizer, é certo, que Roth era muito amigo de Alexander, mas podemos responder pelos erros de outrem, mesmo sendo um grande amigo? Sei não.
O que quero dizer, e talvez esteja me atrapalhando, é que o autor pode mandar seu personagem entrar no mar, mas ou o cronista entra e se molha todo ou larga a pena de vez. É com ele a bagaça. Bora, filho, desembucha. E assim, contando, todos os dias, sobre isso e aquilo, seja sobre as pirâmides do Egito ou uma praga de mosquitos, sobre um exoplaneta ou o medo de ir ao dentista, sobre as dimensões do pênis do tatu ou o doce beijo da tímida menina da esquina, ele, o cronista vai se revelando, entregando-se, tirando peça por peça de roupa num strip-tease literário – nos primeiros momentos ainda sem plateia – e nisso, os leitores, dia a dia, ficam sabendo – e sem pedir - mais dele do que ele mesmo. E isso me incomoda um pouco, sabe? até mesmo me desagrada. Mas porque não paro, então de escrever crônicas? Respondo. Bom, apesar de saber que aos poucos vou revelando parte daquilo que me constitui: de onde sou, onde estou, o que gosto, o que não gosto, os lugares que visitei, que gostaria de visitar - as Maldivas, nunca - relacionamentos que tive, o que penso e não penso sobre eles, os escritores, escritoras que admiro, o que faço antes de dormir, o que não faço, onde compro os meus livros, onde gosto de comer, meus vícios, manias, tiques, medos, achaques, birras e tatibitates, sim, apesar disso tudo, sei também que há em mim uma parte – talvez a maior – que nunca vou revelar pelo simples fato de que até eu desconheço-a. E se, ao escrever, inconscientemente, revele-a um pouco, aí a coisa já não é mais comigo, é com Freud. Ele explica.

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