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A primeira vez

Antes de, pela primeira vez, ver o mar, senti o cheiro dele. Estava em todo lugar, impregnando as coisas, as pessoas, tudo. Isso aconteceu quando eu ainda precisava dar uns solavancos na manga da camisa do meu pai quando eu queria alguma coisa dele. Fazia isso para que ele, do ser arranha-céu que era, olhasse para mim, lá embaixo, mirando-o com o meu olhar dissimulado e pidão.
O sol refletia nas coisas feito navalhas de luz. Ardia em nosso cocuruto. Eu, enroscado no braço do meu pai, feito um Tarzan mirim num cipó, ia olhando a areia branquinha e enterrando meu pés nela. Sentia o calor sob as minhas alpargatas. Ao meu lado, os adultos conversavam assuntos impenetráveis. Era como se falassem de coisas ainda não nascidas.
O mar, o mar. Todos falavam da sua imensidão. Mas o que é mesmo imenso para uma criança? O mar era do tamanho de uma casa, de um cavalo, ou mesmo do tamanho do meu pai? Eu me questionava. Falavam também dos segredos do mar, dos navios, das ilhas exóticas. Mas eu não possuía segredos, nem nunca tinha visto um navio, muito menos conhecia a palavra exótica. O que eu sabia é que pisava aquela areia e agarrava-me no braço do meu pai como se temesse me perder no mundo.
Lembro que enquanto mais caminhávamos, mas sentia o vento na minha cara, nos meus cabelos, zumbindo nas minhas orelhas. As camisas dos homens inflavam. Me segurei ainda mais no meu pai com medo da força daquele vento. Eu estava ansioso, mas ficava ainda mais, toda vez que ele, efusivo, abaixava-se e bem diante do meu rosto perplexo, dizia: “você vai conhecer o mar, o mar, filho “. Meu coração disparava feito cavalinhos querendo fugir do meu peito.
De repente, o silêncio. Os homens pareciam ter desaprendido a falar. Estavam como que envolvidos numa aparição. O mar faz isso com as pessoas, fui saber depois. Tira-nos a voz como se naquele espelho d'água imenso, encontrássemos, enfim! aquilo que há tempos procurávamos. Quando olhei para ele, tão longe e tão perto, tão fora e tão dentro de mim, também experimentei o silêncio. Isso, não por falta de palavras, não, na verdade eram tantas que eu não sabia, de início, qual proferir. E para quê?
Fomos pisando na areia molhada e deixando nossas marcas sobre aquele chão tão pisado e tão virgem. Isso porque a água no seu ir e vir, no seu jeito de ser mar, apagava as pegadas de outros tantos que pisara ali feito Deus perdoando os erros dos homens para que alguns outros tentassem novamente. O mar vinha em meus pés e depois ia-se feito criança que quer e não quer brincar. Eu olhava aquilo tudo e não sabia o que era a imensidão dado que ela não tinha medida. A imensidão é uma coisa sem medidas? Eu me perguntei ainda um tempo. Na verdade, ainda me pergunto. Ela é aquilo que está fora e dentro dos olhos? Que cabe e não cabe?
Os homens, desengonçados, como se se banhassem no sentido da vida, mergulhavam e surgiam na água como se morressem e nascessem novamente. Alguns até foram longe, como quem quer desaparecer da vida. Ficavam pequeninos que nem formigas, mas logo, ao voltar, estavam ali, diante de nós, enormes, barrigudos, e ardendo sob o sol sem pena.
Muito tempo se passou, mas sempre que me encontro diante do mar, lembro-me da primeira vez. Não há jeito: vejo-me ali, perplexo, mudo, diante da imensidão silenciosa, eu ali, agarrado ao braço do meu pai. Agora o vento brinca na minha barba grisalha, nos meus cabelos também grisalhos, zumbe nas minhas orelhas, infla a minha camisa e a minha alma. Ah, esse cheiro bom do mar. Não há mais a voz dos homens. Não porque eles a perderam em sua epifania diante da imensidão flutuante, aquela aparição, mas porque não há mais homens. Há muito tempo que se foram. É o curso natural da vida. Não é o que dizem? Não há também mais braços onde eu possa me sustentar. Não aqueles, pois meu pai também, seguindo o curso natural da existência, precisou ir com os outros homens. Se para onde foram existir também um mar, eles devem estar lá, risonhos, felizes, sem voz, meninos, loucos para, de vez, caírem na água. Por enquanto, vou ficando aqui, olhando longe, com os pés fincados na areia e ainda com receio de me perder no mundo.

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