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A velha estação

Era sempre um grande acontecimento ir à estação. A velha e sempre estação que criava rugas como os moradores que olhavam tristes os trens tristes. Os mesmos trens de sempre envelhecendo sobre os velhos ferros tristes e frios e duros e indiferentes às dores. E seus cheiros de óleo e graxa. A velocidade. Efemérides em fogo e pressa. Gemendo bestas. Levando e trazendo sonhos fracassados. Gente sorrindo para morrer chorando. O de sempre. Vestíamos a melhor roupa que de melhor não tinha nada. Usávamos o mesmo sabonete nas fendas dos meninos e meninas. Sabonetes que nos conheciam mais que nossos pais. Tentávamos segurá-los nas mãos feito o nosso destino sempre liso e fugidio. Sabonete língua lambendo labaredas. O cheiro de cloro e clara era a nossa dubiedade de ser. Gostar e não gostar no deslizar de espumas. Uma vontade de corpo e alma. Uma confusão de verbo e carne. Um crescer de abandonos. Gostávamos e não gostávamos. O beijo de desejo e nojo.
Vamos, vamos, tá na hora.
E os olhos grudados como a incerteza grudada. O dia ainda descolando. O sono com os nós dos dedos em nossos medos de dedos longos e de unhas afiadas e nódoas. E nossos desejos na crina crista de galo vencido.
Vovó vem, vovó vem
O velho em seu bruxismo de ondas num oceano-rosto de rapaz velho
Você ainda está aí? Deus do céu!
Os peidos puídos sob os cobertores puídos da nossa vida puída.
- Deus, por onde andava? –
Vovó vinha com seu pão caseiro, seus conselhos e espantos de mundo no seu rosto frio e flácido.
Beijá-la era como andar na lama. Um cheiro de alfazema e morte.
Não quero beijar. A vó fede.
Beija sim, beija sim. É respeito
Então, o respeito fede.
Levanta, infeliz, bora
Então, vinha a palmada como um castigo felpudo
Uma punição adocicada
Um algodão doce doído
A dor de um beijo
Ora, chegávamos antes dos ponteiros dos relógios, assim como os bois a frente das carroças
Era um tempo maior para a ansiedade pôr-se a fiar, a fiar, a fiar, para as suas gerações tecerem tranças, tranças longas como o infinito.
E a velha em sua espera – a espera como um diagnóstico – procurava por si como alguém que que procura a chave que está no bolso e os óculos que estão na cara.
O dor sobre a mesa feito um pacote deixado por um terrorista.

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