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Ainda o carnaval...

Lembro-me de que o Luiz Caldas e o RPM faziam o maior sucesso. Sei disso porque estava apaixonado. Como esquecer? Tínhamos um tempo particular, assim como os homens tinham chaveiros de patas de coelhos, figas, santos, fotos dos filhos. E havia um brilho diferente sobre as pessoas e os objetos. Meu corpo era esguio, adaptava-se as coisas como uma cobra aninhando-se. Eu me orgulhava de mostrá-lo. Também, gostava de jogar os meus cabelos longos para o lado como quem toma uma grande decisão na vida.
Ela, tão franzina, delicada e de voz trêmula, como conseguia me envolver daquela forma? Até hoje não sei. Fizemos tantas promessas. Deus, fizemos pactos de sangue. Ainda lembro dos seus lábios quentes em meus dedos inseguros e sangrando. Seus olhos fechados como numa penitência. E tudo ficou mágico, porque de algum lugar começou a tocar blackbird. Foi quando eu quis chorar.
Era tudo tão sério, tão emergente. Uma hecatombe, o fim do mundo. O amor era uma ferida que podia se romper a qualquer momento. Uma fuga, uma doença, um grito.
– o que uma pessoa quer com outra, exatamente? –
Todas as manhãs, quando o mundo entrava em meus olhos feito alguém pulando a janela, eu pensava nela. Minha vida crescia feito um balão e tudo estava resolvido. A dor corria para debaixo da cama. Era como passar geleia no pão queimado e tudo bem. Aquele cheiro, aquele toque, aqueles movimentos. Tardes com hálito de bala de hortelã, frio de ar-condicionado de cinema, óleo diesel e perfume. Tarde de praça e liberdade de pulseirinhas.
Era o jogo, um jogo. Jogávamos. Era uma dor que gostava, um gesto que ria, uma mão na outra como apoio no futuro insustentável. Então, veio o carnaval, e carnaval pra mim nunca foi festa. Sempre perdi em tempos assim. No mínimo perdi o meu caminho de volta. Ela falou de outros planos e pessoas. Quis segurar as suas mãos, mas já não existiam mãos, quis sorrir, mas já não havia o riso do outro lado assim como não existe um barco para os náufragos solitários. E não havia urgência, nem medo, nem medidas na voz dela. Havia apenas alguém falando como quem decora uma oração para um santo no qual não acredita.
E todos os discos do Beatles silenciaram-se como pássaros que perdem o voo. E eu quis chorar, mas não havia choro. O mundo girou feito um bêbado. Todos os semáforos ficaram vermelhos e demoraram ainda para mudar para o amarelo e acho que amarelo ainda estão.
O carnaval se foi e tudo se foi junto. Esse rebuliço todo é como uma onda. Levanta e se vai com tudo e todos. Fomos. - para onde? - Vez em quando ainda sinto o cheiro daquelas tardes de praças de mim. Vez em quando um cachorro late como se pertencesse àquelas tardes. Olho uma bicicleta, e esta parece sair de lá, de onde o tempo foi o tempo.
O Luiz Caldas não faz mais sucesso. É apenas um homem risonho, de óculos estranhos e tocando sua guitarra numa bela casa. E o RPM nem existe mais. Olhar 43 é uma expressão fora de moda. Na verdade, nunca soube o que isso quis dizer. Mas tudo bem. Gosto dessa coisa que vai e volta como a mesma mulher que só troca de roupa. Gosto desse tempo-carrossel que gira, gira sempre com os mesmos cavalinhos. E eles, assim, como o tempo, sempre chegam sorrindo, sorrindo. Tão novos e tão fora de moda. Sempre. Gosto disso.

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