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Ausência

E veio um trem e nada, e mais um e nada, nada ainda no terceiro que foi quando deixamos de contar. As línguas de aço em seus lamentos incandescentes pra lá e pra cá. A espera enroscando-se nos cabelos de minha mãe. Ela havia tirado o gigolete que lhe dava um ar de menina velha. Agora tentava segurar os cabelos dos ventos travessos daquela tarde. Que é quando as coisas se recolhem e outras se levantam e a vida se impõe. Nariz adunco, frio. Ela com a sua tristeza inquieta, de mesa com perna solta, roendo as unhas feito um verme num cadáver. Os ponteiros velozes e suas flores carnívoras. Arrastando o tempo pela orelha.
"Ele vai falar, ele vai falar, ele vai falar".
Então, de tempos em tempos, meu pai começava a levantar as calças no seu jeito pançudo de dizer “Deu”. E logo vinham os estalos dos lábios, os olhos inquietos como a buscar uma possível fuga. Não apenas dali, mas da vida. Olhava e olhava, de esguelha, olhos nos buracos da vida. Queria falar, não queria falar. Sabia do peso das palavras nas tempestades. Atravessara tantas. Mas um homem é um homem apenas, não dois. E há o querer e o não querer, aquilo que nos surpreende, na surdina de nós, sub-reptícia. Há também essa vontade de borrar o quadro, de sair da reta, de rasgar o papel de presente sem presente.
"Eu sabia. Velha desgraçada".
E minha mãe, com seus olhos de pássaros feridos, olhava para ele. E ele via os pássaros, e seu riso de canto de boca era o tiro de misericórdia. A comichão sádica, traiçoeira. Aqueles olhos eram bichinhos indefesos presos nos dentes afiados da ironia do pançudo. Enquanto isso, rodávamos por ali. Bibelôs estropiados. Caídos da estante. No chão do cotidiano cosmos nosso. Era aquilo. Ora, ora, conhecíamos aquele roteiro. Batido chão de cemitério. Íntimo e impessoal. Aquele roteiro? Ora, ora, podíamos atuar de olhos fechados, mãos nos bolsos, cabeça longe, assobio. Um palavrão rotundo sob a língua. Rotina oblonga, oblíqua. Ora, ora, sabíamos de cor os passos daquela coreografia desbotada de cansaço e tédio e impossibilidades.

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