Sempre que me deparava com os chinelos do meu pai,
me enchia de perguntas.
eram tão pequenos, tão frágeis, tão indefesos
por que eu temia e obedecia o homem daqueles chinelos?
pareciam pedir licença para existir.
sempre que via o dedo em riste do meu pai
bem na minha venta e ouvia o seu grito
eu olhava para os seus pés
ah, aquele meu gesto
- minha Alcatraz -
até podia achar que ele tentava escondê-los
como um banguela esconde o riso.
nada ali casava
era como uma exímia bailarina
dançando com um coxo.
mas aí, eu olhava para o dedo de Deus
eu, Adão espinhento, espevitado,
sem saída.
ouvia, então seus gritos,
logo, ora, obedecia.
abaixava os olhos feito luciferzinho expulso do paraíso pelos anjos de Milton.
só depois, muito depois
- quando o tempo já não tinha tempo -
fiquei sabendo que o coração do meu pai era pequenino e
ainda mais frágil e indefeso que os seus velhos chinelos.
Comentários
Postar um comentário