Foi quando fui e fui. Sozinho. A madrugada com seu cheiro e silêncio. O ruído da porta, os ruídos dos meus dedos. Os dedos dos desejos. Indo e indo sem para onde. O sol brilhando em minhas lágrimas. Aquecendo meu rosto. Os pneus em suas iras. The boxer, the boxer. Assobio incerto. As placas longe, longe. A saudade recente feito uma roupa nova, apertada. Vontade de ir e de voltar. Vontade de ser e de não ser. De estar e de não estar. Os homens sob seus chapéus. Destruídos em suas pobrezas e obediências. Eu já ia longe, num ninho de estradas. Minha mãe já deve ter levantado. Pensava. Posso sentir o cheiro do café, posso ouvir o arrastar dos seus chinelos. Meu pai já deve estar em seus passos de não acordar o mundo. Pensava e pensava. Vai em seu cinto apertado de couro surrado. Posso sentir o cheiro de trim e creme de barbear, sinto o seu hálito de café e só. Seu estômago revirando sonhos impossíveis. As bananeiras no quintal já devem estar em seus abanos de mulheres solitárias no cais em seus adeuses. O cão late para o nada. Para quem chega, para quem parte. É o seu jeito de enganar a vida. Todos têm um ou mais. Meus irmãos e irmãs acordavam com esperanças de cadernos novos. Amanhã talvez, talvez. Oh, as voltas do meu pai. Homem baleado. Da bala doído que se fere e se escapa. Sísifo estropiado, Prometeu em seu castigo. Por que fujo? Por isso, por tudo isso. E já vou longe. Longe feito essas placas, essas vaquinhas pastando sem preocupações.
Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...
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