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Serenidade

“Hoje completo um ano de sere....ni..dade”. Titubeou na palavra não pela extensão desta, mas por não estar mesmo habituado a ela. A sua frente havia um bolo, também alguns amigos. Estes, há muito, remavam no barco no qual ele acabara de subir: o barco da serenidade, como costumavam chamar.
Após dizer aquela frase que saiu feito ossos quebrados, olhou para o bolo, depois para os amigos e riu não rindo. Mais ou menos como alguém que não sabe o que fazer com as mãos, pensa em colocá-las nos bolsos, como quem esconde uma culpa, mas desiste. Coisa assim.
“Corta o bolo”. Alguém gritou lá do fundo. Fizera isso mais para quebrar o gelo do que o interesse de que ele provasse aquela coisa branca diante daquele riso não riso. Alguns amigos ali, alguns bem trêmulos feito rapazes com um Parkinson incipiente, diziam que um ano era pouco tempo. O terreno estava ainda movediço, liso. Algumas partes endurecem, outras nem tanto.
Ele cortou o bolo. Quem dera as coisas fossem simples como cortar um bolo. A faca descendo sem resistência alguma. A vida era um bolo imenso, duro, cheio de obstáculos, vieses, resistências. Deu o primeiro pedaço àquela mulher que envelhecera tão rápido, que entristecera tanto, que sorria como se alguém lhe pressionasse um punhal nas costelas. Aquela mulher de fala mansa, não, mansa não, cautelosa. A cautela havia tomado conta da sua voz como um castor se apropria de detritos para construir as suas represas. Aquela mulher, a sua esposa, estava repleta de represas, nela havia muitos, muitos castores, todos trabalhando, trabalhando, e por isso, aquela voz naquela mulher. Ela esperou. Segurava o bolo em suas mãos também cautelosas. O que esperava? Talvez nada, nada, pois, havia ali, todos sabiam, o medo de não merecer aquele pedaço doce. Talvez o único pedaço doce que a vida lhe oferecera até então. Ele olhava para ela e para o pedaço do bolo nas mãos dela. Só assim, por cautela, comeu o bolo. Não podíamos dizer que ela comia mesmo o bolo. Era apenas alguém mordendo alguma coisa.
Dentro da sua casamata, ele, empunhando um imenso escudo de silêncio – este não era pela falta de palavras. Na verdade, havia muitas. Era mesmo pelo receio de dizer algo feito a pedrinha que segura toda uma avalanche – olhou todos ali. Os sorrisos feito quadros tortos, os olhares furtivos como se de ladrões no meio da noite. Além disso tudo, podia ver – e ele já não tinha ficado de frente para esse espelho? – havia algo lá dentro, bem lá dentro feito uma dor amordaçada. Algo inacabado, abandonado como um artista que havia tentado esculpir algo e por não conseguir, deixara tudo ali, sob às intempéries, as heras e os cocôs dos pássaros, porém sempre com a vontade de voltar àquilo e terminar a obra inacabada. A obra maldita.
Após o aniversário do ano glorioso, regado a muita água, mais água e bolo – o café também fora suprimido. Do café passa-se ao cigarro, do cigarro, à bebida, da bebida à sarjeta. Diziam – logo pela manhã, levantou-se disposto. Não podia reclamar. Ora, seu corpo agradecia. Não havia mais aquela sensação de entorpecimento. Aquela impressão de que usava óculos embaçados. Como se as palavras chegassem sempre depois que os outros haviam terminado de falar. Aquele encaixar-se na vida apenas pela metade.
Mais um dia sem um gole, mais uma pedra no olho do ciclope, outro dia sem outro gole, outra pedra no olho de outro ciclope. Com o tempo notou que esfregava, em demasia, as mãos. O dia todo nesse esfregar-se como se procurasse, constantemente, segurar-se em algo para evitar a queda. Ora, e não era mesmo isso que estava fazendo? Mas você agora está no caminho certo. E não é fácil seguir o caminho certo, assim como nunca fora para os nossos. Afirmavam. Às vezes buscava um lugar mais escuro, onde a luz de todos os argumentos, não lhe atingisse a cara em cheio, um lugar mais silencioso onde pudesse ouvir algo dele mesmo. Um pensamento seu e só seu.
Os domingos continuavam difíceis como sempre fora, para ele e para os seus de sempre. Era um dia perigoso porque nunca começa e nunca termina. O sol, ardendo, vinha-lhe queimar o dedão do pé. Parte do seu corpo que também estava na luta pela serenidade. Serenidade, serenidade. Palavra que começava a lhe dar nos nervos. Estava sereno, e agora, o que vem depois disso? O que muda? Pensava na inquietude da serenidade. O que fazer com aqueles acenos na rua, dos seus amigos, acenos que pareciam mais olhos de espiões sorrindo sem riso. Começou a pensar que essa paz culpada, essa serenidade que seja, era como um vazamento de gás. Pode demorar, mas uma hora é certo, te mata. E não há como lutar contra, pois sabemos que vaza, mas, onde exatamente? E pode o faminto rejeitar a maçã envenenada?
Era o único soldado vivo no front. E para quê? Como lidar com esse mundo de vidro? O sol do domingo azul agora subia na sua perna inerte. Era também um parte do seu corpo que não sabia lidar com a serenidade. Daqui a pouco todo aquele sol estaria sobre ele. Por que todos agora sorriam como se de repente entendessem o sentido da vida? Perguntava-se.
Levantou-se da cama como um exército que precisa, enfim, invadir outra nação. Olhou para os lados não como se procurasse esconder a sua fuga iminente, mas como se desejasse encontrar alguém e ele pudesse lhe sorrir com desdém e pudesse também lhe dizer: “Este mundo perfeito não existe”. Mas não encontrou ninguém. Todos já deviam achar que ele havia se acostumado à serenidade como quem, com o tempo, aceita um diagnóstico ruim. Em passo mansos, como se saísse de uma festa ruim, na qual se sentia um penetra, passou pelo portão. A língua estalando, a boca criando água com o sabor do seu pensamento. Foi-se. Muito em breve, do portão, uma pessoa viria gritar que alguém precisava ir lá buscá-lo.

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