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Um coração de menino

Gosto dessas mercearias do interior. Dessas que têm duas portas grandes, uma calçada alta e um bêbado sentado nela como se ali fosse morrer. Sempre que vejo uma, paro e a olho como quem, faminto, aprecia um prato antes de devorá-lo. Quando desliguei o carro veio um silêncio tão grande que tive de me segurar no volante para não afundar nele. Ali perto, sob uma mangueira, uma senhora catava piolhos numa criança. Quando desci do carro e já ia em direção à mercearia, um bezerro me olhou como se estranhasse o meu jeito de caminhar com apenas duas patas, quer dizer, duas pernas.
Subi a calçada alta – ainda fazem essas calçadas? – como se estivesse subindo ao céu. O bêbado me viu, sei, mas não me olhou. Eles conseguem isso. Dentro da mercearia havia luz, mas não estava de todo claro, pois as bugigangas penduradas no teto, em todos os lugares, impediam a luz de iluminar os homens, as coisas, o mundo. Me encantam as sacas de juta, no chão, abertas como que bocas de gigantes prontas pra nos engolir. Dentro delas, em cada uma delas, o feijão, o arroz, a farinha, o milho. Todas com uma plaquinha com os preços escritos com a bela letra do estudioso e espinhento filho do dono da mercearia. O pai, com orgulho, disse que o filho está fazendo aulas de caligrafia e desenha que é uma beleza.
Gosto de enfiar as mãos nas sacas. Faço isso desde menino. Um dia até consegui me esconder dentro da de feijão. Foi duro de me acharem. Mas eu até já queria que me achassem, pois estava todo me coçando. Gosto do cheiro indefinido dessas mercearias: cheiro de rapadura, fumo, palha, mortadela, salame, charque, temperos, couro, panos? Isso tudo sim, misturado ao cheiro do suor das roupas e dos chapéus dos homens num entra e sai de urgência lenta.
Me deu um repentino sono – e isso eu já tenho desde menino – ao ficar olhando o dono embrulhar, lentamente, o saco de feijão de meio quilo. Dizia que não usava balança. Esta era apenas para desonestos e mesquinhos. A sua balança era o coração e este, nunca subtrai, sempre acrescenta. Pensei um pouco na filosofia dele, e gostei. Era isso mesmo. Coração é fonte de amor. Disse para mim mesmo.
Me desviava aqui, me esquivava acolá, levantava a cabeça e a baixava novamente, para de novo erguê-la e seguir naquele labirinto semiescuro sem Teseu, Ariadne, Minotauro. Era apenas nós ali, homens simples, com segredos simples, sem mitos. Eu fazia todos esses movimentos porque aquelas coisas penduradas, feito pernas de enforcados, vez ou outra, batiam em nossa cabeça, e quando não nos assanhava os poucos cabelos, dava uma dorzinha doída pra dedéu! Então, tinha de gingar e gingar feito quem vai dar um golpe de capoeira. Mas isso era só eu, pois os homens andavam por ali como se estivessem indo pelo caminho de casa, a sua casa de todos os dias.
Um gato preto cruzou as minhas pernas. O dono disse que era Xanim, o gato da filhotinha dele. Xanim era gordo feito um buda. Continuo olhando as coisas e com vontade de enfiar as mãos no feijão, até o ombro, quem sabe, também o rosto. Criança eu ainda sou, o que não sou mais é um menino, franzino. Por isso não entro todo ali naquela saca, mas vontade não me falta. Olho e olho, rodo, giro, entro e saio. O dono me olha, mas não pergunta se quero alguma coisa, pois se eu preciso de algo, uma hora vou pedir. Adiantar pra quê? Ele tem o dia todo, ora. Podia ver que pensava assim.
Quando já ia pedir alguma coisa, qualquer coisa, o que me viesse à cabeça, entrou um homem, e num português muito dele – aprendi, em minhas viagens, que ruim não é tentar entender outra língua, aquela que você ainda a estuda, ou não a conhece de fato. O sufoco mesmo está em tentar entender a nossa própria língua – era um português todo dele, já disse. Falava sobre um anzol assim, assado, e sobre um rio que ficava ali perto e que os peixes estavam saindo pelo ladrão. Isso, eu, a duras penas, entendi, acho. Foi-se depois, e ainda falando a sua língua. E eu tentando entender.
Eu precisava ir, mas o que eu queria mesmo era ficar ali, morar ali, morrer ali. Olhei a tarde lá fora arrastando o seu véu de pó de ouro, a sua coroa arranhando o céu. Enchi-me de alegria. Uma sensação de completude. Eu estava feliz ali. Então, num rompante, pedi uma rapadura grande, uma garrafa de cachaça, dessas que só encontramos quando nos perdemos, e alguns palheiros. Fósforos também. O médico me proibiu os três: o açúcar, o álcool, o fumo. O médico devia me dar a vida, mas, de fato, me tira. Cheirei a rapadura, acendi um palheiro, e traguei forte como se fosse o último. Olhei a tarde de ouro, a mulher ainda catando piolhos na criança, e até olhei o bezerro que não tava mais nem aí pra mim. No meu peito batia o coração de um menino. Na próxima consulta direi ao médico que violei sim algumas regras, mas também direi que naquele dia, a tarde estava tão linda, tudo estava tão certo, no seu devido lugar, e que por isso e por outras tantas coisas, eu me sentia indestrutível. Direi também que, num dia qualquer morrerei, todos morremos, sim? Incluindo os médicos, mas, definitivamente, não morreria ali, não naquele dia, naquela tarde, diante daquela mercearia e feliz da vida, feliz de vida.

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