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Como numa canção do Simon and Garfunkel

Gostaria de escrever a minha vida como uma canção do Simon and Garfunkel. Um cara que sai pelas estradas, conhece algumas cidades, fuma alguns cigarros e continua em frente. Para onde? Não importa. Para frente. E ele abraça os irmãos que são aqueles caras também sofridos que assim como ele buscam alguma saída. E que tentam esconder as pancadas que levaram. As pancadas que estão ali, sutis, nos sorrisos contorcidos sob os bigodes velhos. E o cara depois se despede e toma o rumo novamente. Qualquer rumo. Não existe o chegar. O que há mesmo é o aprendizado das estradas, o pó, o frio, o som dos próprios passos. E há as noites de estrelas, as noites solitárias com mugidos longe, os latidos dos cães dos caçadores. Há sempre um índio sábio e velho. E há um tocador de violão do interior e que morde as palavras como quem guarda algum grande segredo. E há a ferrugem dos trens, a graxa, e os gemidos do trilhos em suas dores de aço. E há aquela saudade de ir e também a vontade de não voltar.
E no ir, no ir, as paisagens deslizando, os varais longe com suas roupas esvoaçantes, e vez em quando um sorriso de uma mulher linda. Sorriso que fica para trás com os varais, as roupas, as paisagens e a mulher linda.
Gostaria de contar a minha vida num tempo breve de uma canção de Simon and Garfunkel, e que a agulha ficasse presa no final num ad infinitum. Uma canção com botas surradas, empoeiradas, carcomidas. Gostaria de ser o cara sentado, sozinho, longe e olhando os minguados carros nas solitárias railways num final de tarde com pinceladas douradas. Ele aprendeu a ser e estar sozinho. O seu canto não faz parte do coro das grandes cidades. As cidades o rejeitam como um pai que nega a sua cria.
E o cara em seu sono doído dorme sob uma árvore centenária e sonha os seus medos e desejos mais antigos. Mas no dia seguinte não lembra de nada, de nada, então envolto pela bênção do esquecimento, bate sua roupa, põe o seu chapéu e retoma a estrada. E ele não é apenas um agregado minúsculo de carbono impuro e água. É um homem, um homem. E há fibra, e há força, e há ainda fé. E ele vai, e ele vai. Para frente, para frente. Sempre, mas devagar, bem devagar, porque chegar não é o mais importante.

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