Tenho pensado tanto nela. Por vezes, até sinto a temperatura da sua mão. Meus dedos brincam com seus dedos longos e suas unhas carcomidas. Sentia a força protetora dessa mão toda vez que, de brincadeira, ameaçava uma fuga. E aí ela prendia a minha como uma águia prende os seus filhotes. Isso quando eu ainda usava calções curtos e meu destino era só ir até a esquina avisar ao velho que o almoço estava pronto. Quando cresci mais e quis fugir daquele amor complicado, daquela casa de proteção de lençóis limpos e comida quente, que foi quando decidi atravessar o continente, senti essas mesmas mãos ajeitando a gola da minha camisa, batendo no meu ombro para tirar uma sujeira inexistente, e até, ajeitando os meus cabelos. Era o seu jeito de dizer que iria chorar se aquilo demorasse mais. Quantas vezes não vi aqueles olhos feito dois lagos cinzas transbordando e inundando a geografia sofrida do seu rosto. Oh, tenho pensado tanto nela. Não importa quanto tempo estou a pisar esse chão. Não importa quanto peso a gravidade insiste em me delegar. Vou resistindo, burlando, mentindo pra mim mesmo, falando com o outro de mim no espelho, tocando as rugas como se estas pertencessem apenas ao homem do espelho. E ele parece rir de mim. Ele parece ter chorado hoje e agora tenta rir. Sim, faço isso. Minto para mim que não chorei. Sei que chorei porque meus olhos incham, minha cabeça dói. Eu sei que sei. Isso porque tenho mesmo pensado nela como se o passado tivesse apenas algumas horas. Como se ela estivesse lá na cozinha com a sua velha luva tirando mais um bolo do forno e, às pressas, levando para a mesa. É como disse Drummond: "é tudo tão rápido. É como se ainda menino, embarcássemos num supersônico, e desembarcássemos adulto. Ainda lembro de coisas da minha infância como se fosse ontem". Sim, é isso. Ainda perduram o cheiro de alguns frutos lá no quintal que não mais existe, como se eles tivessem acabado de cair. Sinto os galhos entre os meus dedos e o amargo das folhas em meus dentes de leite. Um dia ela me disse: "filho, você vai conhecer o mundo". Ah, eu trocaria tudo, tudo isso por aqueles lençóis, por aquelas noites, por aquela esquina para onde eu ia achando que estava desbravando o mundo. Oh, esquina longe aquela. Poderia ter ido até lá de caravela, com meu brado infantil de terra à vista. Poderia ter escrito minha carta sobre o descobrimento daquela esquina muito antes de Caminha ter escrito a sua. Trocaria tudo, e isso não é nada, daria ainda algo mais de volta para apenas gritar, com minha voz gasguita da travessia doída de menino para homem: "pai, o almoço tá pronto".
Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...
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