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Era

era gosto de beijo roubado
desses que estalam e cheiram
a chiclete ploc
azedinho bom de bala
beijo de prisioneiros no portão sob os olhos
sentinelas dos pais e
suas sacanagens velhas em baús velhos
rijo era tudo
tudo esticava-se feito fisgada de peixe-grande
dor e delícia e mais...
fiat-lux de carne e saliva e
era cheiro de xampu halo
amaciante na tua pele macia
eu mascava a tua ausência
como meu avô mascava fumo
dormia mascando e se babava todo
eu babava você que nem sabia ali diante da tv
tua casa cheirava à cera e cozido de carne.
teu cachorro latia diferente
teus móveis estavam no lugar certo
o carro do teu pai cabia na garagem feito um rei no trono
e tua mãe dormia no sofá em roncos e bruxismos
então, eu te roubava sem te ter
e eu te levava de ti
lembro do teu corpo-pão-doce
vez em quando eu tocava o abismo
e caía nele.
e era escuro, doce
água no inferno da boca
pecado bom
feito pelas mãos de um diabo piedoso
então, veio o tempo sem tampa
e tudo morreu vivo
- o que é ainda pior -
então, toco as lembranças
o que dá pra lembrar, toco, toco,
toco
como naquele tempo, tocava
mas murcham também os seios
das lembranças.

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