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Há algo mais além dali da gente

levei-a até o alto daquelas terras
eu havido saído dela e agora
ela era um saquinho de ossos delicados sobre os meus ombros
eu segurava em suas pernas finas enquanto ela,
com voz de criança - um falsete frágil -
cantava uma canção antiga.
eu conhecia aquela canção
oh, eu conhecia aquela canção
foi a única coisa que ainda guardou da vida
tudo mais havia se diluído em seu e só seu rio Lete
devia pensar que alguém a roubava da sua casa de bonecas
- "Amar é breve, esquecer é demorado". Pensei na frase do poeta chileno -
enquanto eu pisava firme o chão de areia fina
como quem tenta andar num prato de farinha
ela permanecia cantando, cantando
quando eu passava pelas pequenas árvores floridas
ela, como quem se apodera de cachos de frutas,
como quem tenta se agarrar as asas de anjos risonhos,
pegava várias flores e soltava-as pelo chão
dizia que era para florir o nosso caminho
dizia ainda que as flores eram o passatempo de Deus.
ela sempre quis ver o que havia depois dali,
lá no alto daquelas terras altas que agora eu só tenho em fotos.
eu sabia, que depois daqueles montes só havia tristeza
como tristeza havia em todo o lugar
casas e mais casas, gente e mais gente
na urgência doída do doer doido.
mas há muito ela, levantando o queixo delicado, dizia:
"filho, um dia eu vou saber o que há ali, depois de ali, lá".
e eu ria para mim um riso que ainda não sei se era riso.
era como algo, num papel pardo, esquecido numa despensa.
mas já no fim. Oh, sim, no fim do fim, levei-a lá, lá
e quando, muito suado, com as pernas trêmulas, ofegante,
cheguei no alto, e ela pôde olhar para aquele horizonte sem vida,
para aquela terra sem céu, sem chão, depois de um silêncio que me disse muito,
arregalou os olhos lindos, deu um suspiro profundo
como que um ponto final numa história, e então falou:
"olha, um castelo. Eu sabia que havia um imenso castelo aqui,
eu sabia. Que lindo. Olha que lindo este castelo, filho.
ria como uma menina, feliz, feliz

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