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A cozinha sem porta

Fazia uma vida que ela estava naquela cozinha. E ali não havia uma porta. Nenhuma. Desistira completamente de procurá-la. Durante muito tempo se dedicou a isso: a achar a porta, a porta. Tateou a parede, agachou-se, olhou pelas fendas, e nada. Cansou. Ela sabia que existira ali, uma porta. Ora, e como entrou? Havia sim. Quando ela chegou, era ainda uma cozinha bonita. As paredes eram novas, o cheiro era bom, tudo era limpo. A coisa começou a mudar logo após a primeira fritura. E daí foram tantas, muitas. Os clientes foram surgindo, os pedidos, aumentando. Gostavam da comida dela e ela gostava que eles gostassem. Mas isso já ia lá muito tempo.
Agora só pensava em sair dali. A sua pele parecia a pele das paredes da cozinha. Pegajosa, suja. Sua testa brilhava feito a lua. Não conseguia sentir outro cheiro a não ser o do óleo frito, queimado. Podia ver lá fora os clientes devorando a comida que ela preparava. Riam, mastigavam, devoravam tudo. Depois fumavam, tomavam o café e logo em seguida partiam em gargalhadas perfuradas pelos palitos de dente. A todo momento, alguém colocava o rosto imenso e redondo no quadradinho da parede e gritava: “duas omeletes, um filé de frango, fritas, outra omelete, mais um frango, um bife bem passado...”. Porque gritavam, isso ela não sabia. Estavam ali, tão próximos. Será que estava ficando surda e não sabia?
Aquele vão na parede, aquele pequeno quadrado era tudo o que tinha para poder observar o que se passava lá fora. Um dia, tentou sair por ali. Mas aquilo era muito estreito, além do mais, por aqueles tempos, ela engordara muito. Podia colocar um braço, uma perna, mas passar por ali, jamais, impossível. Enquanto isso, os dias vinham e morriam, e ela ainda naquele pequeno mundo que era a cozinha que um dia, alguém – ela também não lembrava quem – a colocara ali. Foi o seu primeiro emprego? Não lembrava disso também.
Até que deixou de atender os pedidos. Então, começaram a xingá-la. A dizer que a sua comida não valia nada. Jogaram objetos lá dentro, na direção dela. Ela, como pôde, correu para um lado, para o outro, olhou para cima, quis ser pássaro, voar, sair pelo vão, tomar o céu, respirar, mergulhar no rio, ver os peixes, ser ela outra vez, ser aquela menina quando ali chegou.
Os pedidos se acumulavam no prendedor. A sineta não parava de tocar, mas ela não via mais sentido naquilo. E assim os clientes começaram a minguar. E mais uma noite ela dormiu ali sozinha naquela cozinha pegajosa.
Na madrugada, ela, suja, triste, chorou. E o chorar é o movimento dos rios dentro de nós. Mudam, levam, transformam, lavam. Então, no silêncio da madrugada, alguns vizinhos disseram que ouviram o som de latas vazias caindo no chão. Uma após outra e mais outra e mais outra. Foi o que disseram. Mas as pessoas falam demais. Fazem isso para esquecer as suas vidinhas. Mas o fato é que, no dia seguinte, quando o dono do bar chegou, encontrou, bem ali, junto à parede, logo abaixo do vão da cozinha, muitas latas de óleo. Não entendeu. Ora, o que faziam ali? Perguntou-se. Tinha de limpar a sujeira. Quis chamar a mulher, triste e sozinha lá dentro do cubículo gordurento, mas lembrou-se que ali não havia uma porta. Então, juntou todas as latas e as jogou na rua para que as pessoas as levassem, para que os lixeiros as recolhessem, para que os meninos as chutassem, e que por fim, desaparecessem dali. E foi mesmo o que fez. E quando foi falar com a senhora gordurenta e triste lá na cozinha, não a encontrou. Não havia mais ninguém ali.
Até hoje, nunca descobriram como ela havia fugido. Dizem que agora morava no Caribe e que vivia rindo com o vento, feliz e longe de toda e qualquer cozinha. Parecia outra, completamente. Mas as pessoas falam demais, já disse.

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