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A estrela cadente

Logo que cheguei a São Paulo, morei em pensão. Em tese, era triste, mas eu gostava. Tenho, naturalmente, esse espírito de dançar no inferno quando os capetas já estão levantando as cadeiras e lavando o chão. Danço. Meu quarto não era dos melhores, mas não era dos piores. Lá para os fundos outro mundo acontecia sem a camada de cima saber de muita coisa. Alguma, sim.
Nos finais de semana só ficava a padaria até umas dez da noite. E eu ainda sem direção ficava ali em impressões jovens e etílicas. Achava que ia engolir o mundo. Achava que era justo um mundo bom aceitar um homem bom. Não foi assim que me foi ensinado? Não, não foi, mas relutamos em aceitar a verdade.
Voltava da padaria com hálito de pizza com bastante ketchup e algumas cervejas. Na sacola ainda algumas. Ficava na janela olhando o vai e vem dos carros. Gostava disso. É como um soldado na trincheira antes da matança. Dá pra fumar alguns cigarros, pensar na família que vai envelhecer sem você e olhar a foto da namorada distante que vai se casar com outro de tanto esperar por sua decisão indecisa.
Vamos tocando a vida como um homem que aceita que perdeu uma das pernas. Lá num dos quartos dos fundos havia uma estrela morrendo sozinha. Tinha convivido com uma multidão. Aplausos, sucesso, dinheiro, coisas assim. Mas, enfim, chegara o fim. Chega para todos. Para os desvalidos chega ainda mais ligeiro. A estrela cadente havia sido deixada ali, pela família, para morrer nas teias do esquecimento e da tristeza. Bebia todas, até morrer. Era ainda bonito. O seu riso era o que me pegava. Aquele sorriso era como um belo, jovem e feliz casal armando uma barraca na praia num dia de sol. Fiz de tudo. Oh, deus, fiz de tudo. Mas ele queria morrer, e nisso eu não posso dizer muita coisa, porque na arte de morrer, pelo menos, eu tinha lá, uma quedinha.
Entendi. Deixei algum dinheiro e fui embora. Mudei de pensão. Não queria comprar apartamento porque tinha o pensamento de que até os mortos sentem-se felizes de mudar de túmulos, vez em quando. Mexe com os ossos, de repente nos viram para o leste onde o sol bate na nossa cara sem graça e cara, e é bom assim.
Nunca mais soube da estrela cadente que morria num quarto bolorento – nunca sei se é borolento ou bolorento. Coisa de criança, pois eu gostava de mudar as palavras e me acostumei a isso. Por exemplo, Azamonas. Enfim. Sou este ratinho que arranha caixinhas, fura sacos e se desvia de ratoeiras. Tem sido assim. Até quando não sei. Sinto saudade da estrela cadente. Por isso escrevi essa crônica. Mas, não posso segurar o mundo assim como segurava minhas bolas de gude. Deus que se vire com toda essa coisa. Eu não criei nada. Aliás, meu pai só dizia que eu destruía as coisas. Então, tá tudo certo, vai Deus, que o filho é teu e só cabe a Você educá-lo, ou, até mesmo, deixá-lo morrer.

ao som de Whichi will - Nick Drake -

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