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Baú

Oh, amigo sou um baú de tantas coisas. Dentro dele há tantas ruas hoje sem nomes, amigos que já se foram. Há canções que cantei e que ainda não esqueci porque estão em mim no sangue que me circula. Há, sob o terno bem cortado do homem triste que agora sou, as roupas da minha filha quando desafiava a gravidade. Há os calções curtos feitos pela minha mãe num domingo chuvoso. Há as conversas de botecos, os sonhos em retalhos.
Sou este baú, velho e novo, amigo, que vez ou outra, aparece no meio da sala como o único móvel da casa. Ah, há meus discos velhos, aqueles que mexem comigo com os cutucos afiados dos pega-varetas do passado. Amigo, sou isso, essa vontade de voltar guiado pelos mapas extraviados, vontade de voltar com vontade contracorrente, com meu nado de lagoa rasa e perdigotos, sou esta constante piracema. Sou este ser de cheiro de terra e capim de tarde de pai e pão que não chega nunca, nunca, sou mãe que espera e espera e espera, sou filhomãe
Tanta coisa nesse baú, tanta. Estou inteiro nele como um homem soterrado, sob a terra pesada da memória.
oh, as esquinas que dobrei, as que não dobrei, oh, esquinas. Luas grandes feito chapéus sobre minha cabeça de não cearense potiguar sim não sei, não sei.
[Onde estão os meus sapatos?]
Costelas visíveis como a pecha da juventude, como chagas de um cristo hippie.
Esta dor que não tem que doer e tem que doer porque estou e sou e assim sou mais. Porque morto ninguém é.
Baú eu e meu, lá estão meus pais com seus últimos e únicos sorrisos meus.
E o beijo, e o cheiro, e a casa aos pedaços com meus pedaços. E a vida ávida em retalhos.
Acordes de tantas canções, sons de tantas noites, manhãs de tantas manhãs. Café e cordas. Violões e volições.
[mas pra cantar, cordas de aço...]
Sou este ser tão vivo e tão morto, tão. Corte de máquina Singer, carne moída mais que nós. Goteiras, gotas de cristais, e gatos, e galos. Ah, o cemitério do Alecrim e conversa depois do jantar. A novidade esperando ser velha. A calçada maior que nossos anseios. Sou este baú que nenhuma palavra diz. Sou este que por mais que escreva ainda página em branco, branco, pálido. Sou esse ser que sempre e nunca é. Nunca e sempre. Sempre e nunca. Sou esse quase eu querendo o mundo meu que não me cabe.

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