A cabeça está a mil. Há tanta coisa pra contar. Há uma cidade sob a chuva, luzes e luzes, o asfalto brilhando feito um dorso úmido de um corcel, há ainda o cheiro de um perfume, um sorriso no retrovisor, uma mão quente sob uma outra, há tudo isso e mais, mas o corpo está cansado, as mãos, os dedos se contraem e nada vai. Posso ouvir o som dos pneus no chão, uma música. É como um exército que precisa defender uma nação mas seus homens já não aguentam. Querem apenas deitar sob as sombras frondosas das tardes e fumar alguns cigarros., repousar o corpo, ler algumas cartas ou apenas olhar o horizonte.
A cabeça quer, mas o corpo não. Um quer ir, o outro quer ficar. As setas do passado vão em todas as direções. Estamos em algum lugar e pulamos para outro. Retalhos de conversas, abraços, chegadas e partidas. Tudo tão intenso, mas depois cada um segue seu caminho. Depois que nos encontramos já não somos mais os mesmos. O tempo é outro, nossos anseios são outros, nosso corpo é outro, compromissos, interesses, tudo. E quando falamos sobre aqueles tempos rimos como se falássemos de um lugar extinto, de um animal exótico. É a força da juventude que se esvai nas urgências sem urgências. E os amores? Ah, os amores que vêm e que vão como uma doença que não te mata porque dessa forma não seria amor. E os amigos? Onde eles estão com suas promessas e pactos de cerveja e sangue?
Queria falar disso tudo, a cabeça quer, mas o corpo quer apenas singrar como um navio fantasma, sem destino. Lembro de um som de uma campainha, um arrastar de portão, um grito, uma reza, um choro, um ranger de cama. Sinto um beijo na testa, um frio que vem pela janela e a sensação, coisa que nunca mais senti, de que o futuro é um lugar seguro.
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