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Como se fosse hoje

Gosto de ficar, mas tenho esta vontade desenfreada de ir e ir. Num dado momento, vem a estranha sensação de que algo já não me cabe ou vice-versa. Então, quero ir. Quando era bem pequeno, ainda no berço, minha mãe me encontrou à porta de casa, já querendo ir para a rua. Ela não sabia como eu havia saído do berço, eu, muito menos. Depois a bacia ficou pequena, a minha cama também, a nossa casa, a rua, o bairro e, por fim, a cidade. Então fui e nunca mais parei. Estou sempre na iminência de partir. É uma coisa que está em mim como um sinal, uma mancha, uma cicatriz, um braço.
Mas penso que isso se intensificou quando, um dia, na minha pré-adolescência, fiz uma viagem com o meu pai. Talvez ele já quisesse me direcionar para o seu ofício. Ofício do qual muito se orgulhava. É, talvez ele quisesse mesmo que o reizinho ocupasse, um dia, o velho trono do nosso infortúnio e, por isso, me levou junto em sua odisseia de boleias altas, de homens de gargalhadas sonoras, com sofridos palitos de dente no canto da boca, mãos manchadas de graxa e ventre protuberante. Lembro-me daquela viagem como se fosse hoje. É tudo tão vivo que penso que na minha velhice - não agora, não agora - um dia, todas as minhas lembranças desaparecerão para dar lugar a esta: eu ali, naquela rede, a lua esgueirando-se pelos galhos do cajueiro, as vozes dos homens, o cheiro dos seus cigarros, do combustível. Os carros, longe, num vai e vem sonoro sonolento. O neon, lascado, de tempos em tempos, sem sucesso, tentando acender o X do Texaco. Trepidando e chiando feito um inseto em agonia. Lembro-me do vento quente feito o hálito de um deus febril. Lembro-me das histórias. Ouço ainda os gemidos e as risadas das meninas, o estalo de um beijo, um gozo, ou mesmo um impropério. Vejo quando uma delas batia a porta do caminhão e logo desaparecia na escuridão para desaparecer em outro caminhão.
Estar ali, no meio de todos eles, naquele lugar, era uma sensação mista de liberdade, de mundo e de aconchego. Sempre que eu despertava de um cochilo, assustado, olhava em volta, e aí via um homem cortando as unhas, outro tomando um café, um outro jogando baralho, e ainda outro fumando e olhando longe, como a contemplar o futuro, ou mesmo já pensando em outras estradas. Eu olhava aquilo, aquele mundo que acontecia mesmo quando eu não estava desperto, e logo voltava a dormir. Queria ficar acordado, mas Morfeu tem lá os seus truques. Então, eu apagava e as gargalhadas dos homens invadiam os meus sonhos e tudo se misturava e já não havia mais distância entre a fantasia e a realidade. Era bom.
Agora, talvez, tento reviver essa sensação como alguém tentando achar um rosto conhecido na multidão. Talvez por isso essa vontade de ir sempre, essa busca por essa intimidade distante, essa sensação de estar e ao mesmo tempo não estar no mundo. Como uma constante surpresa do mais simples e belo que há em nós.

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