Os ponteiros se repetem sobre as horas e você se lembra que tem um compromisso, que precisa tomar um remédio, ou encontrar alguém. Podemos deixar pra lá, declinar, deitar a cabeça no braço macio do sofá e esperar que as horas passem, quer dizer, que os ponteiros passem, porque as horas não saem mesmo do lugar. Enfim, podemos burlar as horas, mas não podemos nos safar das datas no calendário. Tudo já está tão longe, não? a ferida nem incomoda mais, é o que parece. Até esqueço que está ali. Então chega. Estamos presos nesses 365 dias que vão e vêm. Tudo se repetindo como um filme que começa, acaba, recomeça, acaba.... e quando determinada data chega, chega tanta coisa. Então, vem você, Pai. E esta palavra é uma mescla de salgado e doce, é, às vezes, lisa, noutras áspera feito a língua de um gato faminto.
Mas eu precisaria de muitas páginas para falar sobre isso. Tentei traduzir em poesia tudo aquilo que não me cabia, que me arranhava, que me insultava, que me cuspia na cara. Quanto beijos houve? quantos afagos? Houve? É você mesmo sorrindo nesta foto? Ah, e sou eu mesmo esse menino que segura a tua mão que pesa feito o mundo? Lembra, pai, quando perguntei por que elefante não voa e você disse, oh, seu tolo, não voa porque é pesado demais. Oh, pai, poderia ter dito voa sim, é só pedir que eles logo voam. Afinal, pai, um avião não é pesado? E a formiga, a lagarta, não são leves? Pai, nada supera a leveza do sonho. Sonhar é viver o impossível, porque nem só do possível é feita a vida. Pai, nem todo o mundo é visível. Há tanta magia sob essa tua tristeza de mesa de jantar. Os sonhos, pai, são como os lençóis brancos da mãe, todos eles criando barriga, tentando ir além dos varais, querendo ser mais que lençóis.
Pai, essa palavra de sapato novo apertado que todo o ano o calendário me traz sem me pedir. Oh, João Silvério Trevisan, entendo o que diz, e como compartilho contigo. Que achado foi achar esse teu livro "Pai, Pai". Ah, como chorei te lendo, te amando. João Trevisan tuas palavras me libertam da mesma forma que você se libertava quando descia o balaio pesado de pão nos teus ombros franzinos. Sei o que é isso.
Oh, amor tardio. Oh, dia difícil de atravessar porque hoje te quero e não te quero, te vejo e não te vejo, sou e não sou. Joguei todos os álbuns de fotos no muro do vizinho. Depois vou lá pegar, pai, quando o calendário murchar as suas folhas. Quando este dia alçar seu voo para só voltar ano que vem. Estarei ainda aqui, pai, pulsando e doendo? Ah, teus joelhos frágeis não suportariam esse marmanjo de barba grisalha querendo brincar com os brinquedos que você sempre me prometeu, sempre me prometeu...
Pai, quando você sentava-se à mesa mexia com a perna do mundo. Ele também perdia o calço, assim como a nossa velha mesa da sala velha. E aquela luz tosca, hein? pai, tentando esconder nossos olhos desencontrados, querendo ser e não ser olhos. O calendário ainda pulsa, ainda sorri. Seria de mim? Pode ser, pode ser.
Não, não pude assim como com as horas, deitar a cabeça no braço macio do sofá. Passei todo o dia zanzando pela casa como quem foge de si mesmo. Mas tudo bem, meu pai, o tempo deu um jeito em algumas coisas. Ou talvez eu tenha me cansado disso tudo. Chega. Logo pegarei no sono, e este dia já terá ido e aí poderei, no dia seguinte, enganando-me, fazer um café, quem sabe, assobiar, e caminhar sem o peso de todas essas lembranças que, dias amo, noutros, tento. Tento, pai, confesso que sim, acredite. O que custa agora? Chega! Um beijo nessa tua tristeza enrugada e revestida de celeste do azul mais azul do infinito.
Comentários
Postar um comentário