o que mais me doía nas duas flores escuras e murchas nos pulsos do meu irmão mais velho não era a face enrugada da morte. Esta já era uma velha sombra conhecida de todos e que em sua retórica silenciosa e eficiente já tinha ludibriado tantos na família que já não nos espantava. O que me doía mesmo era a vontade ferrenha do meu irmão de partir, de nos deixar. O que fizemos? E não éramos também passageiros daquele trem desgovernado? Foi numa madrugada solitária e quente que descobri essa sua vontade. A morte deve se irritar quando alguém, sem limpar os pés no tapete, sem bater palmas no portão, adentra o seu castelo. Deve ficar irada quando é arrancada da sua sesta em seu trono gelado. Esquece até que é morte e, com seu dedo longo, engelhado, em riste, bem na cara daquele que quer vir muito antes do esperado, solta impropérios e perdigotos a rodo: "Volte, seu imbecil e só venha quando eu mandar, tá entendendo?". Deve ter sido isso, só pode, porque o meu irmão, no dia seguinte, à mesa, enquanto tomava a sopa, tentava novamente, caber no mundo mundano de sempre. Os olhos de quem mastigou a hóstia.
Comecei a ler António Lobo Antunes pelo Memória de Elefante. É o livro de estreia do autor português. Logo que foi lançado, em 1979, tornou-se um grande sucesso de vendas. É fato que parte da crítica não o recebeu bem, mas, segundo o próprio Lobo Antunes, crítica nenhuma foi tão dura quanto a do seu pai, João Alfredo Lobo Antunes, quando, ao ler o livro, disse para o filho: “isto não é literatura” O Memória de Elefante não é um livro difícil como os que Lobo Antunes escreveu tempos depois. Mas toda essa complexidade que hoje é atribuída ao autor – e que ele nega – já está, de alguma forma, em gestação nesse livro: o estilo denso, a narrativa não-linear, fragmentada, o fluxo de consciência, a simultaneidade do tempo, e a poesia - sim, Lobo Antunes era um poeta. Como não? O que ainda não há nesse livro é a sobreposição de vozes: a polifonia. Esta, ele só vai utilizar, e de forma cada vez mais extrema e complexa, nos livros posteriores, como O Fado Alexandrino, A Ordem Natural das Coisas,...
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