Meu sonho era namorar uma normalista. Isso já tem um tempo. Gostava daqueles uniformes despojados, do andar, do jeito que elas levavam os livros presos ao peito. Quando a sineta tocava feito uma lâmina rasgando as horas, e elas saíam em suas gargalhadas e perdigotos juvenis, eu - já um menino triste - até podia acreditar que o mundo era possível. Vinham, todas elas, para a rua feito um vulcão em erupção, um incêndio na floresta, uma avalanche, e eu - coitado - logo me eriçava na janela em meus anseios de pássaro ainda sem penas.
Quando se iam de vez, a tarde voltava ao começo do mundo. Tudo dormia. Meu corpo era apenas um corpo. Nada além disso.
Sonhos, mesmo que antigos, resistem em resmungos de bengalas. Sim, ainda sonho namorar uma normalista. Ainda refletem em meus cabelos grisalhos aqueles sorrisos de saia pregueada e olhar azul marinho. Aquele olhar cravado na gente, sem nenhum medo do futuro. Meu sonho não é aleatório. As normalistas sobreviveram à lei 9394/96 e há mais de quarenta mil delas por ai em seus gestos velozes e precisos.
Já não sou mais aquele menino, mas quando elas passam ainda estico-me e chego a conclusão de que o poeta está certo: definitivamente, os sonhos não envelhecem.
Comentários
Postar um comentário