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Minhas férias

Algumas lembranças são muito sem noção, sem educação. Lembrei-me agora que, na escola, em alguns anos, a professora pedia pra gente escrever uma redação com o tema “minhas férias”. Logo de cara fiquei de castigo, pois não entreguei o texto. Também levei um zero. Numa mescla de inquietação e curiosidade ficava me virando na cadeira, ora para um lado, ora para o outro, para frente, para trás. Tudo isso para ouvir os textos dos colegas. Uns falavam das manhãs na fazenda, dos finais de tarde. Dissertavam sobre o gosto do leite puro, do cuscuz fresquinho feito pelas mãos carinhosas de uma vó de fala doce. Ah, os ninhos de passarinhos, os banhos de rio. Eufóricos, remexendo-se nas cadeiras, falavam que bom mesmo era cavalgar o Corisco, o Raio & Trovão, o Cometa, o Estrela Cadente, o Maremoto, o Turbilhão, o Napoleão. Estes eram os cavalos que todos eles, nas férias, montavam até dizer chega.
Eu ia pra casa pensando nessas coisas, nessas férias de felicidade. Até trotava na rua e fazia barulho com a boca como se estivesse montando aqueles cavalos: “oiê, Corisco. Chi..chi, vai, Napoleão”.
Depois, cansava deles e pensava no gosto do cuscuz fresquinho, do leite puro. Até via as mãos da doce vovó passando para eles a manteiga, o pão, a coalhada, a geleia.
Sobre o que eu poderia escrever? Pensava. Quem iria querer saber que nas minhas férias eu viajava com o meu pai para vender as mercadorias que ele precisava vender e logo? Quem, em sã consciência, Deus, quereria saber que meu pai, nas minhas férias, pedia-me para encher a tina toda vez que o balde arranhava o fundo? Acho que ninguém. Nas minhas férias eu trabalhava até morrer, pois eu ajudava o meu pai a nos ajudar.
No ano seguinte, lembro que pensei muito em escrever algo. Quebrei muito a cabeça – isso não mudou muito. Continua difícil. Até hoje. Ainda mais – mas não escrevi nada. E tomei outro zero pra se somar ao outro do ano passado, no que juntei os dois e fiz um infinito. Ouvi mais histórias. Tanta coisa linda. Um colega havia viajado, pela primeira vez, de trem. Contava isso com tanta convicção que eu até podia ver seus cabelos voando ao vento quando ele estava na janela olhando a paisagem veloz. Uma colega tinha ido ao circo e falou do leão, do urso, dos palhaços. Tinha até uma mulher barbada, mas isso pra mim não era nenhuma novidade, pois a irmã do meu pai era barbada. Era o que meu pai dizia. O que gostei mesmo foi do texto de outro colega. Ele disse que andou na montanha russa. Uau!
Fui para casa com meu braço sobre uma janela imaginária de um trem imaginário, e fazendo com a boca o apito do trem: “piui...piui...piui”. Depois, cansava disso e logo estava na montanha russa. Subindo e descendo. Acho que se alguém me viu ali, na rua, abaixando e subindo, deve ter achado que eu era louco.
Sobre o que eu poderia escrever? Perguntava-me. Quem iria querer saber que nas minhas férias eu tive de viajar de novo com o meu pai, e tive de puxar água para encher os potes, para aguar o jardim, para lavar a louça? Quem, mãe de Jesus, em sã consciência, quereria saber que minha mãe, nas minhas férias, ficou de cama e quase passou dessa para melhor, e que quando eu pensei que fosse melhorar, tive uma crise de asma que quase suguei todo o oxigênio do mundo? Acho que ninguém. Nas minhas férias eu trabalhava até morrer, pois eu ajudava o meu pai a lamentar os nossos lamentos.
Mas eu já não aguentava zero. Então escrevi algo. Mas não queria saber de fazenda, nem de cavalos de nomes estranhos, passarinhos, cobras, lagartos, banhos de rio e companhia, não. Se era pra inventar, então, que eu inventasse mesmo, pra valer. Pensei. “Minhas férias” foram em Marte. Sim, o planeta, e na companhia de inúmeros homenzinhos engraçados e inteligentes. A sala parou. Ninguém respirava. Todos estavam em Marte, e quando terminei de ler, eles ainda estavam lá. Não tirei dez não, - a professora não era fácil -mas não tomei outro zero nem régua na cabeça. Tirei um sete. Abracei aquele sete como uma mamãe abraça seu filho logo que ele nasce. Mas, melhor que o sete foi ter aprendido que se não temos um mundo podemos inventá-lo e que a literatura é uma poderosa ferramenta para conseguirmos isso. Podemos criar uma viagem e fazer com que as pessoas comprem passagens imaginárias para embarcar num foguete imaginário rumo a um planeta fabuloso.
Sempre que me encontro sem o que escrever, penso na minha redação sobre minhas férias em Marte. Logo os dedos põem-se em movimento, a cabeça ferve, pinta um sorrisinho, e a página vai se enchendo de coisinhas. Mas isso não quer dizer que eu esteja isento de alguns zeros, não. Não é fácil. É a vida, meu irmão.

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