Nas calçadas em noites de lua
as mulheres ficavam em suas cadeiras de balanço olhando lânguidas os transeuntes em suas pressas e preguiças.
Era assim que ficávamos sabendo disso ou daquilo:
quem nasceu, quem morreu, quem ficou louco ou quem traiu quem
Parecíamos pequenos corvos dissecando carniça
É assim aqui, é assim no resto do mundo.
Não é uma questão de civilidade, mas sim, de tédio.
E o tédio é internacional
Embarca e desembarca diariamente em todos os aeroportos do mundo &
Nunca se esquece da bagagem
Com perspicácia felina, está sempre pronto para conexões e escalas
também atrasos
E nós ali, pausas do nosso miserê
Era quando as mulheres largavam a cozinha e os homens encostavam o pilão,
entre outras coisas
Passa o rapaz em seu cavalo, o casal com o menino chorão
Passa o vendedor de pote, o crente e o ateu
Cruzam com o relojoeiro, o padeiro, o marceneiro, o enfermeiro
E nós aqui nesse pasmeiro
em mente, caricaturando os infelizes passantes
A lua ia e a calçada enchia feito menino barrigudo e
de umbigo de roseira.
Chegava um depois outro e mais outro, vários.
Traziam suas velhas cadeiras, que inquietas,
estalavam sob aquelas bundas grandes e bem acomodadas
como se ali fossem viver para sempre.
Só entrávamos para nossas velhas casas
quando o vigia, de alma sonolenta e olhos papudinhos, chegava em sua bicicleta
e com seu apito babado, e quando a lua, lisa e
silenciosa,
desaparecia no céu e rumava
lá para as bandas do Japão.
Ia ligeira iluminar os solitários e exaustos decasséguis
lembrando-se das conversas boas
nas calçadas do Brasil.
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