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Saga

Não é só a infelicidade que segue em seu passo coxo
A felicidade tem lá as suas bizarrices
Pois bem, nunca me senti tão feliz quando, um dia, eu e meu pai, na velha kombi de guerras, nos perdemos pelas estradas do sem fim.
- eu tinha o quê? Treze, quatorze anos? –
De repente nos vimos num vazio
no meio do nada
Um nada amarelo, feito uma velha foto de gaveta.
Dava pra ver longe, longe....lááááá ali, até onde os olhos podem ver o longe
As árvores murchas feito esqueletos num baile, uns nos outros, pareciam buscar consolo e afago, talvez refrega.
Como se a morte os tivesse pegado de surpresa, todos em meio a uma grande dança coletiva.
Mas eram apenas árvores.
Havia, no ar, um cheiro de carniça, de couro queimado, de terra torrada.
O sol em seu amarelo ilusório parecia também querer nos queimar dentro da kombi estalando em seus augúrios de aço e borracha.
O silêncio, ah, o silêncio é a voz tagarela da naturaleza
Muito longe, uma ave agourenta soltava o seu grasnado de morte
Nada mais, nada mais
a pequena e indefesa kombi também parecia perplexa em meio aquele pedaço de terra longínquo e solitário
Era como estar diante do começo do mundo, como se ali, tudo fosse ainda tomar forma e eu e meu pai fôssemos os primeiros habitantes dessa saga.
Talvez aquilo fosse o fim do mundo. A destruição que logo seria reconstrução.
Uma coisa ou outra, isso não era relevante
O que contava mesmo era a imensa felicidade que perpassava todo o meu ser
o sentimento ágrafo
o idioma único
o êxtase que subverte
a razão.

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