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Tudo me aborrece

Se a viagem de ônibus for de umas quatro horas, vou de ônibus. Acima disso, prefiro ir de avião. Podíamos ser como os pássaros: bater as asas e voar. Tomar a direção que bem quisesse e entendesse. Me irritam os operacionais dos aeroportos. Estes são sempre muito distantes: uma viagem na viagem. Aí tem o táxi, a espera, a antipatia maquiada da moça do check in- ou quando muito, aquela simpatia protocolar também muito maquiada - , o café sem gosto, filas e mais filas, a ansiedade das pessoas – a minha também – a pressa, as lágrimas de crocodilo nas despedidas, sem falar no choro entediado das crianças abraçadas aos seus brinquedos entediados.
As viagens de ônibus não ficam atrás. Penso que nestas, cada vez mais perco a manha de lidar comigo. Parece que aquele velho deitado que diz que a chegada não importa, que o que conta mesmo é a experiência da viagem, o caminho, coisa assim, vai perdendo a sua força. O mundo anda veloz e ruidoso. “Vai admirando a paisagem”. Dizem. Ora, que paisagem? Concreto, concreto, concreto, carros indo e voltando sem muito sentido, vaquinhas ao longe babando de tristeza e preguiça.
Anthony Bourdain, um apresentador que muito admiro, e que se foi em meio a esses últimos tempos macabros, disse que se em algum lugar você se sentar ao lado de uma pessoa que não tem nada a ver com você, converse com ela. E mais: se perceber que ela não tem nada a dizer, dei-lhe ainda mais ouvidos, escute-a com toda atenção do mundo. Pô, Bourdain, brother, difícil, viu? Exercício de buda.
Se eu leio durante a viagem? Sim, leio, mas confesso que lia mais. Leio quando dá, pois parece que hoje em dia o silencio é de lata e o barulho é de ouro. Parece um complô: quando decido abrir aquele calhamaço que passei tempos procurando, alguém sempre pergunta alguma coisa: “é sobre o que esse livro, hein?”. “Como é a história, é triste?”. “O cara morre no final?”. E o que é ainda pior: “tem imagens? Só gosto de livros com imagens”. Enquanto isso, alguém fala alto ao celular, outro ouve música, assiste à séries, alguns vão diversas vezes ao banheiro, gargalham, uma criança chora, algo apita, cai, arrebenta, arranha, uma vovó tosse, o ônibus sacoleja, alguém ronca, tropeça, espirra. E têm aqueles que parecem que compram passagens para lugar nenhum - não importa para onde vão - O grande barato é contar toda a sua vida a algum infeliz ali dentro que quer apenas ler um livro. É um tipo de terapia sobre rodas.
Com olhos ansiosos, percorro as linhas do texto, mas não consigo sair dali. Pareço Teseu preso no fio de Ariadne. Então resolvo ouvir música e aí o cara ao meu lado começa a dormir no meu ombro feito um anjinho babando nas fronhas das nuvens. Tento seguir feito um cristo arrastando uma cruz, mas o cara tá gostando demais. Meio que já abraça o meu ombro esquivo e inerte. Sei lá. Coisa assim. Olho o relógio e o relógio me olha. Olho a estrada e a estrada me olha.
O ônibus dá uma paradinha, e logo vários meninos barulhentos penduram-se nas janelas feito os peixinhos na piracema. Falam um português reinventado, quase estrangeiro. Talvez este seja o idioma da resistência.
Olho novamente o relógio. Ainda duas horas? Pergunto-me mais impaciente que cansado. Bom, o tempo é relativo, sabemos. Para o cara ainda dormindo em meu ombro dormido duas horas não são nada, para alguém fazendo amor numa das praias do caribe, sob uma lua cheia, duas horas também não são nada. Mas para mim...aqui....deixa pra lá.
O fato é que cada vez mais, mais coisas me aborrecem nessas viagens. Mas não há muito o que se fazer. O tempo urge. Dançamos todos a valsa macabra do capitalismo. Todos correndo para ganhar aquilo que já perdemos. Se ficar o bicho come, se correr o bicho come também.
Se pudesse ficaria mesmo em casa. Viajando parado. Rodando o mundo que me roda. Adoro, em meu velho sofá de guerra, esticar as pernas sobre uma almofada e ir passando as páginas do meu calhamaço. Uma virada e estou nas Antilhas, outra e me encontro na Londres do século xviii, outra ainda e chego no umbigo do mundo, sou agora um andarilho olhando longe, à espera dos deuses. Sem filas, atrasos, perda de bagagem, sem turbulência, buracos nas estradas, nada disso. Menos ainda choro de bebê. No meu ombro só dormem as musas. E como babam, as bichinhas. Mas é bom. É bom.

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