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A bolsa ou a senhorinha

Um dia, eu estava saindo do supermercado quando uma senhorinha, banho tomado, toda arrumadinha, cheirando a alfazema me abordou e me perguntou se eu tinha visto uma bolsa assim, assim. Era dela. Tinha esquecido perto daquela coluna ali. Foi o que disse. Olhei na direção para onde ela apontava, mas não vi coluna alguma. Ali, notei apenas pessoas em suas pressas e anseios de sempre. Disse-lhe que lamentava, mas não tinha visto a bolsa dela não. Que perguntasse ali, ao gerente, quem sabe ele guardou, né? Após isso, fui em minha pressa. Fui pensando que logo eu, né? que olho as horas e não as vejo, que olho os carros e só os percebo quando buzinam em mim, olho as pessoas e mesmo assim, esbarro nelas. Vivo com a cabeça no mundo da lua, ou com os olhos dentro de um livro. Eu que esqueço contas a pagar, a consulta do médico e até o meu aniversário. Como eu iria, então, notar uma bolsa por ali?
A senhorinha foi-se e os dias passaram porque é isso que os dias fazem, passam e passam. E aí, eu estava na padaria quando vi a senhorinha novamente. Estava aflita. Toda arrumadinha, diadema sobre os cabelos brancos bem penteados, gesticulava e gesticulava. De longe – não muito – procurei ouvir o que ela dizia. O que teria acontecido agora? Outro problema? Foi quando ouvi que ela perguntava ao senhorzinho do caixa se ele tinha visto uma bolsa assim, assim. Era dela. Tinha esquecido perto daquela coluna ali. Apontava. Ué! Não entendi. Era a mesma bolsa? Havia perdido outra? Se sim, aquela senhorinha não podia sair com bolsas. Pensei. O senhorzinho passava troco, abria gaveta, fechava, abria de novo, falava com um, com outro, sempre muito focado nisso, e a senhorinha ali, dissertando veementemente nos ouvidos indiferentes dele. Não, não tinha visto bolsa nenhuma. Foi o que ouvi ele dizer a senhorinha que, inconsolada, foi-se em seus passos de menina velha.
Muito tempo depois, sei lá quanto, estava num boteco, tomando a minha cerveja quando - adivinhem - avistei a senhorinha de novo. Logo pensei: não, ela não deve estar mais procurando a bolsa. Muita vida já havia corrido nesse meio tempo, então, a bolsa já era coisa do passado, com certeza. Voltei então as minhas e só minhas reflexões e esqueci a senhorinha ali, ainda gesticulando, aflita, falando com o garçom. Ele a ouvia, mas parecia estar em outro lugar. Não me soava nada interessado no teor da conversa. Ela, toda arrumadinha, permanecia convicta no que dizia. Apontava para algum lugar.
Foi-se, então, desconsolada e sozinha. Quando o garçom passou por mim para atender um cliente, perguntei-lhe, então, o que, na verdade, a senhorinha queria. Ele riu e disse que era uma velha bolsa que ela havia perdido. Mas ele já estava acostumado com ela. Esta senhorinha, dizia ele, passava toda a semana, todo o mês, todo o ano, perguntando a todos ali no bairro se eles tinham visto a bendita – ou maldita – bolsa que ela havia esquecido em algum lugar. Esta bolsa, reforçava o garçom, ela perdeu – se é que perdeu mesmo – há muito tempo, quando ela era jovem, talvez, quando menina. Agora, com Alzheimer, fica perguntando sempre a mesma coisa: a bolsa, a bolsa, a bolsa. Todos ali, nem a ouviam mais. Só diziam que não tinham visto bolsa nenhuma, então, logo ela ia embora. Desconsolada como sempre.
Fiquei atônito. Poxa! que coisa. Deve ter sido um momento marcante, por isso tornou-se uma lembrança constante. Teria sido uma experiência boa ou ruim? Acredito que boa, né? dado que ninguém sai por aí buscando reviver coisas ruins, sei lá. Fiquei pensando o que poderia ter dentro da provável bolsa. Quem sabe uma carta do namorado, uma proposta de casamento, um exame de gravidez. Podia ser também o retrato do pai falecido ou da mãe quando jovem, a receita médica de um filho doente, sei lá, podia ser tanta coisa, mas com certeza, muito importante, pra resistir assim tanto tempo no tempo.
Passei a semana toda pensando na senhorinha e na bolsa perdida. Pensei também que poderia estar pensando numa bolsa que nunca existiu. Talvez, pura criação da mente daquela senhorinha e eu aqui, divagando nessa criação. Nessa divagação devagar, acabei pensando se eu tivesse de guardar uma única lembrança da minha vida, uma apenas, digamos, qual guardaria? Essa, aquela, aquela outra, esta, aquela acolá? Não sabia, não sabia. Ora, como resumir toda uma vida a uma lembrança apenas? Penso que é mais fácil lidar com as lembranças dos outros, e até mais com aquilo que esquecemos, melhor ainda. Então, por isso, voltei a pensar na bolsa da senhorinha. O que será que tinha mesmo dentro, hein? Talvez, um mapa de um tesouro, ou uma botija, como o meu avô gostava de dizer.

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