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Um ato de vontade

Escrever é um ato de vontade. Não uma vontade como tomar um sorvete, ir ao cinema, andar de bicicleta. O sorvete podemos tomar depois, podemos declinar, podemos até nunca o tomar. O cinema podemos ir outro dia, ou mesmo deixar pra lá. Andar de bicicleta...bom, a mesma coisa. Mas escrever é uma vontade que não podemos adiar. Desistir dela, ainda pior. Tente. É um impulso incômodo. Puxa pelo teu braço, sussurra no teu ouvido, às vezes até grita.
Vou me deitar. Tudo está resolvido: conferi o gás, fechei as portas, dei uma última olhada pela janela para contemplar a rua vazia. Já com a cabeça no travesseiro sem mais o dedo em riste das obrigações – mais ou menos – com os olhos feito pássaros buscando ninhos, de repente, um estalo, um insight, sim, esse olhar de fora para dentro, esse objeto reencontrado, essa epifania interna. Sim, uma ideia que vai inchando na cabeça feito uma massa de pão no forno, E queima. Viro-me para o lado como quem espanta fantasmas, como quem, de forma física, quer esquecer um pouco da vida, do que você é, e penso, com um fiapo de pensamento, que vou me trair. Sim, serei eu meu próprio Brutus. Serei eu mesmo a me apunhalar, cairá o meu império, sei disso. Digo não. A ideia parece boa, mas o dia terminou. E eu sou senhor de mim – mais ou menos - .
Viro-me novamente, e mais uma vez, soco o travesseiro como se batesse na cara da ideia. Os parágrafos vão surgindo, formando-se, tenho um provável início, tenho um provável final, já sei como é isso. Faço essa coisa há quanto tempo? Sei não. Há muito tempo. Pago minhas contas – mais ou menos – com as palavras. Há pão nas palavras, há sustento. Muitas vezes tenho de puxá-las pelo pescoço, tenho de esmurrá-las, noutras imploro, ajoelho-me, arranco os cabelos. Mas, há dias que elas vêm feito um plantel ensandecido, adentram com tudo, caem feito pétalas de ouro.
Levanto-me, tomo água. Sei que já estou me corrompendo. Sei que são as argúcias da mente. Ela quer, ela quer. Não entendo isso, por que essas pulsões? Sei que dessa árvore só conheço as folhas. O bloqueio não existe. É assim que o vejo. Bloqueio é só uma forma de nos dizer que precisamos socar ainda mais o texto, o papel, a nossa cara. E faço isso, e na maioria das vezes sai sempre um texto melhor. Desconfio quando as palavras me chegam em rompantes, assim como desconfiava quando me tiravam pra dançar. Quando a menina mais linda da rua estava apaixonada por mim, eu sempre achava que eu era outro. Me dava um desespero. Declinava e ia atrás da menina que nem olhava pra mim. Sentia-me seguro com essa rejeição. Assim é com as palavras – mais ou menos – quando elas chegam assim que deito a cabeça no meu travesseiro, fico cabreiro. Reviro-me feito um homem enterrado vivo. Mas tá no sangue, correndo como um rio vermelho, buscando os caminhos do corpo, o mar que nunca encontra. Não é isso, não, ainda não é isso. Virá? Serei ainda capaz? Não há como fugir. Não é um momento específico, sou eu, sou eu. Nasci avariado. Não há como me passar a limpo. Deixa, então. Vida que segue.
Agora há personagens, e eles estão ávidos, vívidos, querem existir, querem um nome, uma vida, querem alguém. E há um espaço que precisa ser preenchido, e há um tempo, há alguém que quer algo, e eu digo apenas que por isso e por aquilo, vá lá amigo e pegue, mas já está em cena, na minha mente, um outro que quer impedir que aquele tenha o que deseja. E uma batalha está formada. Já não há mais paz, nem sono, nem travesseiro. Não quero e quero, quero mais, não quero.
Passando pelo corredor, olho o computador, depois olho minha cama. Sou Jano de faces perplexas. Olho e olho. Corro para a cama e me atiro nela como quem pula numa piscina, cubro-me como um menino medroso em sua cabana improvisada, no quintal. Mas não dá. Tudo já está formado – mais ou menos - . Então, levanto-me e me dirijo ao computador como quem vai fazer amor e ao mesmo tempo matar alguém. Escrever é um inferno. Mas tá no organismo, tá na veia, tá no sangue, já disse. Gostaria de ser o outro, aquele que escreve em mim, por mim, mas não eu, não eu, mas sou sim, sou, no final de tudo, sou eu. E já sei, já sei, não há como fugir dessa vontade incômoda. De quase tudo é possível fugir, mas não de mim, não de mim mesmo. E então, me entrego ao velho ritmo e ao amargo som das teclas. Nem ouço mais o tique-taque do relógio. Serei eu mesmo esta pessoa? Ás vezes, tenho lá minhas dúvidas.

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