Casa velha
De entrar meninos
[e de sair]
Pequenos, irrequietos, chorões
Meninos de tias, irmãs, comadres
Meninos e meninas
Casa velha de histórias
Tantas,
Mais que da matriarca velha de fala mansa
sonolenta no rilhar da cadeira inquieta
Balançando-se no precipício do tempo
Histórias e histórias
Casa velha dos rumores das folhas
das damas da noite excitadas de odor
do morcego velho entrando pontualmente
[no piscar do amanhecer] e
esbaforido,
para seu costumeiro sono de bunda-cabeça
vinha como se fugisse da cruz
fugia era mesmo da luz
velha casa de frinchas e goteiras
por onde minha alma passava apertada para tocar a lua,
as estrelas, os planetas...
quando a noite não cabia em mim
a maioria delas cabia direitinho dobradinhas
em meu coração-envelope
mas algumas, sei lá por que, perdiam a dobradura
e então, eu ali, a me remexer feito um camundongo
numa caixa
velha casa velha
de latidos
vozes,
falas,
gentes,
cheiros
coisas
rejuvenescendo em mim
enquanto envelheço.
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