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Mudo

Nós dissertamos sobre os assuntos, mas é o tempo que nos dá o cardápio. Quando era pequeno dormia no mesmo quarto do meu irmão mais velho. E sobre o que falávamos? Sobre gaiolas, passarinhos, planetas, jogadores prediletos.
Então, viajei. Fiquei um tempo fora, como uma roupa lavada que é posta para secar. E quando voltei, não sabia mais falar de gaiolas, passarinhos... enfim, essas coisas. Falei de um vazio no peito, um peso na alma, as diatribes do amor. Confiava no meu irmão porque saber é também dizer que não sabe. E quando o assunto pesava, ele simplesmente dizia que não sabia. “O que é o amor? olha, sobre isso eu não sei dizer muita coisa". Quando fazia isso era como se me respondesse tintim por tintim tudo sobre o que eu havia mencionado. Então, ele olhava para as paredes do quarto como se procurasse uma saída.
Depois de um tempo, quero dizer, alguns anos, ficamos mudos, longe um do outro. Então, voltamos a nos falar. O tempo com sua gravata borboleta, seu passo elegante e bigodinho de Clark Gable continuava nos trazendo o cardápio. E este ficava cada vez mais turvo, triste feito esses mendigos de semáforos em domingos nublados.
Meu irmão foi para um lado, eu fui para o outro. De novo, esquecemos um do outro. Se é que podemos dizer assim. Ele se casou, eu me casei. Ele cuidou dos filhos dele, eu cuidei dos meus. A vida vai criando suas teias, e até parece que independente de nós. E veio de novo o tempo e seus cardápios, e agora estávamos num bar, perguntando-nos, como podemos ter ficado tanto tempo sem falar um com o outro. Falamos de separação, de doenças dos pais, da escola dos filhos, choramos, sorrimos. Mais sorrimos que choramos, abraçamo-nos.
Até que um dia tive de ir visitá-lo em um hospital. Eu falei muito como quem tenta preencher os buracos do queijo da vida, mas ele não falou muito porque logo se cansava, e tossia, e ria e tossia novamente. Era um santo. E os santos, sabemos, podem ser serrados ao meio que logo transcendem tudo. Aguentou firme. Falamos de doenças, de morte dos pais, da velhice.
Então, tudo se foi. E isso é uma coisa ainda muito estranha de aceitar. É como receber uma carta que não nos foi escrita. Não é nosso nome ali. Por que não eu? Pergunto-me ainda em madrugadas de insônia e taquicardia. Mas também, lembro-me do seu sorriso, do seu jeito manso de aceitar as coisas. “E por que lutar contra o que não pode ser mudado? É gastar energia.” Dizia. Então, sigo, então vou. E o que mais posso fazer?
Hoje, peço mesa para um apenas, e quando o tempo me traz o cardápio, declino. Fico mudo, mais mudo que Pessoa, lá no Café a Brasileira, no Largo do Chiado, em Lisboa. Sim, fico ainda mais mudo.

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