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O médico, o hospital, essas coisas

Pode observar, numa recepção de hospital, posto de saúde não há Homem-Aranha, Batman, nem Homem de ferro. Pode olhar para a direita, para a esquerda, para onde quiser. Não há mesmo Aquaman, Hulk, muito menos, super-homem. O que vejo são pessoas de olhar desesperado. Algo como um bicho envolto num saco de veludo debatendo-se numa ira silenciosa. Todos eles ali, em seus movimentos contidos e suas sacolas de mazelas a tiracolo. Todos eles e suas taquicardias, bradicardias, noites mal dormidas, aflições, incertezas e sei lá mais. E todos com medo. Muito medo.
Mas medo de que exatamente? De serem privados da vida em vida. Do estar e não estar no mundo. O medo dos movimentos lentos e sádicos do médico ao burilar um envelope grande e branco. Não há homem forte em momentos assim, já disse. Ali está Batman, veja, na cadeira, diante do médico. Não traz mais a força nos punhos, por isso não há mais as famosas onomatopeias: tuim, poin, toc, trunc, pah, nada disso. Ele está curvado, mira o chão, enquanto o médico puxa o diagnóstico como os felizes atores e atrizes na festa do Oscar: “ e the Oscar go to...” enquanto nós, todos Batman coitados, aguardamos impotentes, a nossa sentença. Em momentos assim, até pensamos: deus, a guilhotina seria melhor, não?
E o médico, em silêncio, ainda fuça os papéis, enquanto, agora, observamos tudo: suas unhas, suas pálpebras agitadas, seus lábios contraídos, seus olhinhos sobre a nossa vida. O tempo nisso, ali, dura uma eternidade, por isso, buscamos um diploma na parede. Com olhinhos apertados tentamos entender aquelas letrinhas. Mas não importa mesmo o que ali está escrito, ora. O que queremos mesmo é escapar do silêncio pegajoso feito jiboia, aos poucos, envolvendo nosso corpo paralisado de medo.
O médico já não percebe mais você ali. Pronto. Está mergulhado em números, gráficos, palavras e desenhos incompreensíveis. Está se lembrando de quando ainda estudava medicina. Lembra dos amigos, da cervejada, enquanto olha os nossos exames. O consultório é o único lugar no mundo. Quer dizer, não há mais mundo, só há você ali, diante da incógnita perfumada, toda de branco e olhando o teu corpo no papel com teu nome completo em letras garrafais. É mesmo o teu nome? Você pode se perguntar em seu desespero silencioso. .
Depois de alguns minutos, notamos um infeliz passando pela porta como quem pede licença para existir. Vai embora com nomes estrambólicos retinindo em sua mente turva. Quer esquecer o que disse o médico, mas tem medo, quer mandar o médico às favas, mas tem medo, quer gritar para as meninas práticas na recepção e para todas aquelas pessoas paralisadas ali, mas não consegue. Tem medo, muito medo.
Passa pela porta num passo lento, marcado, um movimento que nos remete a uma marcha fúnebre. Entra, então, no seu mundo de novo. Percebe suas forças voltarem. Já não treme feito um menino. Até sente sua capa sobre as costas, também sente um impulso nos pés. Tem certeza agora, longe do médico, que se der um pequeno impulso logo estará voando sobre a cidade. Sobre a sua Gotham City velha de guerra. Claro que pode.

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