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Saudades de mim

Um poeta disse uma vez: “quando eu morrer sentirei saudade de mim”. Entendo, mas sinto essa saudade em vida. Quando se tem vinte anos o mundo é sempre possível. Ouvir, às alturas, os discos do Bob Dylan num domingo de sol. Fumar um cigarro na varanda, numa noite de frio, enquanto sente no rosto, o calor dos lábios dela. E sorrir, sorrir porque o mundo é possível.
Encantar-se com os cantos dos pássaros, com a chuva nos cabelos. Às vezes penso mesmo em mim. Não é um pensamento egoísta, não, - sei das urgências do mundo - é uma necessidade de mim mesmo. De dizer aquilo que nunca me disse. Claro que não gostaria de voltar aos vinte anos. E para quê? Seria como morar definitivamente num país do qual gosto muito. Não, nesse país quero ir de vez em quando, assim, quando tenho saudade de mim. O que sinto? Não sei exatamente, comovo-me, fico triste, mas às vezes vem algo além de qualquer descrição. É como um abraço comigo, talvez uma dança definitiva.
Faz tempo que não sinto o mundo possível. Que não sinto essa força, essa falta de medo, essa vontade de mundo, essa liberdade ingênua e forte. Vez em quando, é certo, me assanha os cabelos, mas já não é mais a mesma coisa. Piso duro, meus gestos são toscos porque viso o alvo, quando, de fato, o grande barato era não acertar. Que importa se ela não quer dançar comigo? O grande prazer está em chamá-la e vê-la retirar-se com sua cara emburrada de falsa indiferença e depois, perceber o meu riso fragmentado nas paredes do salão pelos efeitos do globo espelhado rodando sobre nossa cabeça de vinte anos.
Com vinte anos tudo está tão fora do lugar e tão certo. É só sair pelas ruas, mãos nos bolsos, a chutar tampinhas. O vento é nosso amigo, a noite, os astros. Minha mãe é jovem, meu pai é jovem e o futuro ainda está longe de nós feito um navio fantasma. Posso aprender flauta doce, violão, violoncelo, guitarra, trombone, o que me der na telha. Posso usar sapatos velhos e pisar na lama. Posso faltar a aula, roubar flores dos jardins, como assim fazia Clarice. Posso jogar pedras na janela dela e correr, posso até fugir com ela, posso, posso, sei que posso. Ora, tenho apenas vinte anos e o mundo, todo o mundo, é possível, e ele é meu.

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