Há inúmeras madeleines, diversos paralelepípedos desalinhados, e várias sensações da colher tocando o céu da boca. Refiro-me à memória involuntária e ao universo sinestésico no qual estamos imersos e sujeitos. Qualquer coisa, mínima que seja, pode disparar algo em nós e nos levar para mundos há muito habitados e posteriormente, esquecidos. Esquecidos?
Descendo a rua, vindo da academia, me deparei com alguns ladrilhos. Qualquer pessoa que olhasse aquilo não daria muita trela. Lixo apenas, diria. Mas eu não poderia dizer isso. Parei a caminhada e recolhi alguns daqueles ladrilhos como um antropólogo recolhendo ossos milenares. Logo tinha em minhas mãos algumas pastilhinhas que quando criança costumava morder. Até colocava na boca para desespero da minha mãe que morria de medo de que eu engolisse uma delas.
Agora eu estava correndo por entre as valas do colégio em construção. Não eu exatamente. Na verdade, eu estava ainda parado na rua e encantado com as pastilhas nas mãos. Quem corria pelas valas era o menino que um dia eu fora. Um dia, já adulto olhei esses tipos de buracos e pude ver o quanto eu era pequeno quando corria feliz da vida por eles. Ora, eu me perdia ali dentro. E não conseguia sair deles sozinho. Sempre era o meu irmão mais velho que me puxava pelos braços.
Esses ladrilhos, ou pastilhas como costumávamos chamar, lembro-me bem, roubávamos da construção do colégio. Vinham novinhas, brilhantes, coladas num adesivo. Pareciam mesmo pastilhas e por isso logo eu jogava umas duas na boca, para o desespero da minha mãe: “meniiiiinno, você vai engolir essa coisa”. A frase não me assustava tanto. O que me deixava mesmo inquieto é que ela vinha com o grito gasguita e desesperado da minha mãe. Às vezes até acompanhado de uma vassoura pronta para o ataque.
As pastilhinhas me trouxeram um tempo já longe, ou, sei lá, me levaram até ele. Estive mesmo lá? O que é a realidade, o que é o tempo, a vida? Perguntei-me ainda com as coisinhas em minhas mãos. Como algo tão simples pode ter uma ligação tão forte com a gente, como uma coisa que apenas por alguns momentos fez parte de nossa vida pode, num dado momento, nos tirar do tempo no qual estamos? Perguntei-me ainda.
Trouxe as pastilhas para casa e elas estão em minha mesa. Estou agora escrevendo este texto e olhando para elas. E quem sabe, um dia, se não for muita pretensão, um leitor qualquer vai ler essa crônica e tentará imaginar as pastilhinhas em cima da minha mesa, vai imaginar a cor delas, a luz que agora entra pela minha janela. Mas quem sabe, quando isso acontecer - se acontecer - os ladrilhos já não mais estejam sobre a minha mesa. Talvez eu já não mais exista, nem a mesa, nem este apartamento cheio de luz de um sábado pós-dilúvio. Ou mesmo, amanhã ou depois, a moça, a Clemence, que arruma as minhas coisas, jogue as pastilhas fora achando que é lixo. O que não deixa de ser verdade. Ela, em sua pressa de limpar, bem provável, uma hora qualquer, pode dizer: “meu deus, agora seu Reynaldo tá juntando lixo?” e em seguida, já disse, jogue as minhas madeleines de gesso, vidro e cerâmica fora.
Talvez eu seja mesmo um desesperado Diógenes em busca do seu mundo de entulhos. Seu mundo fragmentado, rejeitado, de coisinhas desimportantes para alguns, mas fundamentais para o senhor Diógenes. Sou este, recolhendo coisinhas que me são importantes para, um dia, sei lá, coisinha por coisinha, tentar montar um mundo com o qual eu realmente me identifique, que verdadeiramente me caiba. Um mundo de coisas desimportantes. É isso.
Comentários
Postar um comentário