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Os Dez Mandamentos

Já se passaram muitos anos e ainda me lembro muito bem da fachada do cinema. Ficava na esquina, trazia um R bem grande, no centro de um triângulo ainda maior, vermelhos, os dois. O resto todo branco, feito um hospital. Foi neste cinema que assisti dez vezes aos Dez Mandamentos. Sim, dez vezes. Passava a semana juntando moedas pra fazer o valor da entrada. As moedas viravam cédulas menores, as menores tornavam-se graúdas e assim, eu ia. Ainda sobrava uns trocados para um pacotinho de jujubas.
Sentava-me bem no meio da plateia. Até hoje faço isso, sento-me bem no meio. Nem próximo da tela, nem longe dela, no meio. Escorrego um pouco no assento macio como quem vai desaparecer por ali, fixo o olhar na tela e vou abrindo o meu pacote de jujubas num estalinho melancólico e sonoro. A tarde ia mudando de sabor. Ora cereja, morango, hortelã, ora abacaxi... e por aí vai. De repente a tela desperta em cores e movimentos. O som entra como num trovão. Vem o comercial, que já sei de cor, pois vi o filme várias vezes, aí entra o filme. Era a mulher com a tocha ou o leão? Disso não lembro.
Os Dez mandamentos é um longa-metragem, tem, acredito, quatro horas de duração, mas era como se tivesse apenas quatro minutos. Passava tão rápido. Quando terminava, eu queria ver a outra sessão, mas já era tarde e eu precisava voltar para casa, e de bicicleta. Ia pedalando como se estivesse atravessando o Mar Vermelho. Vez em quando, olhava para trás para ver os perseguidores de Moisés afogando-se no mar, quando ele se fechava com as ordens do grande líder.
Poderia contar a todos ali, aqueles que, ansiosos, viam o filme pela primeira vez, cada trecho do longa. Eu, baixinho, dizia a voz dos personagens antes deles. Quando a princesa achou o menino no lago, e o levantou, disse: Moisés, Moisés. Eu dizia isso antes dela. E por isso, vez em quando eu ouvia um psiu? Mas não ligava. Ia repetindo as falas, as deixas, os movimentos. Quando o Mar Vermelho se abre é o apogeu. Ia para casa pedalando e chorando. Eu queria ser Moisés, eu queria ser Charlton Heston. Eu estava sempre querendo ser alguém, menos eu. Até arranjei um cajado e ficava batendo nas coisas para ver se elas se transformavam em outras. Um dia, até fiz um menino correr de medo quando disse que ia transformá-lo em cobra. Ele acreditou. É que eu, de tanto assistir ao filme, estava com o fogo divino na ponta da língua. Não estava, mas acreditava que sim. Quando o menino me via passando com o cajado, logo mudava de lado da rua. Minha mãe ficava pedindo para eu me desfazer, me livrar do cajado. Dizia que eu parecia um velho. Mas eu não me desfiz. Um Moisés sem cajado não é Moisés. Até pedi a minha mãe pra me fazer uma túnica, mas ela logo retirou o chinelo do pé e me olhou de modo enviesado. Deixei a túnica para lá, mas fiquei com o cajado.
Um dia, já adulto, perguntei a minha mãe que fim tinha levado o cajado e ela disse-me que por um bom tempo ele ficou sustentando o velho armário da cozinha, depois desapareceu. Ela disse que pelo menos para isso ele serviu. Eu ri. Eu tinha crescido, não possuía mais a fé de quando menino - Tantas coisas haviam acontecido – mas trazia ainda a lembrança do filme, lá no cine Art, nas ruas Barão do Rio Branco e Antônio Pompeu, no centro de Fortaleza, onde, por diversas vezes, de bicicleta, fugi das afrontas da realidade. Enfiava-me num cinema para, com todos aqueles desvalidos, porém cheios de fé, atravessar o furioso Mar vermelho, que para minha frustação, fui saber tempos depois, era vermelho por causa da grande quantidade de corais, e que na verdade, ele não se abriu pelos poderes divinos de Moisés, mas sim, porque o líder sabia, que num dado momento do ano, a maré baixava consideravelmente, dando, assim, possibilidades para a sua travessia. Só não entendo como ele se fechou tão rápido afogando os perseguidores. Bom, mistérios da vida. Vai saber. E isso já não mais me intriga tanto. Mas que eu assistiria aos Dez Mandamentos pela décima primeira vez , ah, eu assistiria. Sim, enfiado no banco, feliz e comendo jujubas. Atento, atento.

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