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Os inimigos?

Aprendi a amar aquele que eu odiava - eu realmente odiava ou me odiava? - vi o quanto frágil meu inimigo é. Ah, o seu coração acelera, o seu corpo pede ajuda a si mesmo. A voz brutal que vinha dele não era uma afronta, mas sim, um pedido de ajuda, um grito, um apelo.
Aprendi a ver aquele que via mais a mim do que eu a ele. O olhar não era de ódio como eu pensava, mas sim de súplica. Já disse. A sua canção, de alguma forma, falava do que eu ansiava. O meu inimigo era o meu melhor amigo.
Eu vi a fenda em seu provável ódio. Vi o seu sorriso como vidro quebrado, como o vento que leva a toalha da mesa do aniversário da filha mais nova. Como o terremoto que destrói a casa, como os gafanhotos que devastam a plantação. Vi o sofrimento como uma ferida purulenta. O meu inimigo sofre como eu. Ele tem insônia, tem palpitações, tem medo, conta o tempo que lhe falta. Tem contas a pagar. Sofre quando o braço esquerdo formiga.
Sim, no dia seguinte, odeia, vocifera, xinga, mas ele também ama, lembra a data do aniversário da parceira, compra o material escolar dos filhos e sofre quando eles não tiram notas boas. O que é um inimigo? Alguém que não conhecemos, não toleramos. Um inimigo é um amigo que ainda não sabe que é. Quem sabe curte as mesmas músicas que eu. Gosta das comidas que eu gosto.
Um inimigo não é alguém longe, mas sim, um ser geminado no nosso ser. É alguém que pode nos aquecer numa noite de frio, que pode fazer uma fogueira para acender a nossa noite definitiva. Um inimigo pode zelar por nossos filhos, ser padrinhos e chorar por nossas perdas, nossas grandes perdas, mas sorri com nossas conquistas. Defender as nossas ausências. Um inimigo pode ser um aliado como uma casa de pedra numa tempestade. Como um guarda-chuva num dia de sol, ou chuva, um inimigo pode ser um afago delicado além de uma afago amigo.
Faço uma canção para o inimigo, uma penitência. Faço uma oração. Precisamos mais de inimigos verdadeiros do que de amigos falsos. Os inimigos nos põem em pé de guerra, os amigos, amigos? nos acomodam como casas de palhas frente à tempestade.
Aprendi que um inimigo é uma amigo melhor que um amigo quase. Aprendi que preciso de algo muito além da amizade, muito além. Preciso me aprender, me ensinar, ser alguém além de mim, de mim, de mim. Afinal de contas o mundo não é uma mesa pronta. É uma mesa que fazemos juntos. O amor não é uma cartilha, é uma vivência, um aprendizado, um rolar delicado e doído de seixos.

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