Um dia percebi minha mãe muito animada. Mas já de cara digo que esta talvez tenha sido a única em toda a sua vida. De certo que não convivi com ela todo o tempo. Há muitos aniversários, batizados, natais sem mim. Hoje, procuro-me nas fotos dessas comemorações e não me acho. E como poderia? Eu passei boa parte da minha vida longe, vagando pelo mundo, atrás daquilo que até hoje não sei o que significa, nem sei o nome, e por isso, também não sei se o consegui de verdade. Às vezes penso que sim, noutras penso que não. É isso. A gangorra de sempre.
Mas todo tempo que convivi com ela, eles, a minha família, foi sim essa a única vez que vi minha mãe bem animada. De resto, lembro-me muito bem dela irritadiça, rodando por um grande bolo confeitado, de aniversário ou casamento, sei lá, tentando, mais uma vez dar o seu melhor, mas agora sem a mesma animação à qual já me referi. Quando decidiu confeitar bolos, já estava mais velhinha, cansada, e com certeza, mais triste. - não é isso o que a vida faz com a gente? - Uma tristeza que lhe curvava os ombros e ia desenhando rugas e mais rugas em seu rosto também triste. Olhávamos aquilo, nós, meninos e meninas, perdidos nas escolhas desencontradas dos nossos sonhos perdidos. Se ela tivesse de confeitar um bolo, geralmente, uma encomenda da vizinhança – coisa pouca – e o dia surgisse de sol e céu azul, ela ficava ali, rodando em sua tristeza e muito estressada com o tempo curto que tinha para entregar a encomenda. Se amanhecesse nublado, e o que é pior, chovendo, ela até chorava: “ah, deus, o açúcar não segura num dia assim, pronto, perdi a encomenda". Olhávamos aquilo, nós meninos e meninas, perplexos em nossa incipiente fragilidade contra as coisas complexas do mundo. Tinha vontade de abraçá-la, mas não tinha braços suficientes, tinha vontade de colocá-la em meu colo, mas ela era grande demais. Grande em seu jeito grande de ser. Como abraçar, colocar no colo aquele ser que amamos mais que a nós mesmos? Não dava. Então, deixava os meus olhos caírem para um dos cantos da casa e permitia que a angústia roesse o fino tecido da minha alma. Dentes afiados aqueles, viu?
Bom, voltando, não sei o que disparou em minha mãe essa vontade de mudar um pouco – só um pouco – a sua rota. Talvez ela tenha conversado com alguém, uma amiga, ou tenha lido em alguma revista, sei lá. O fato é que ela começou a fazer um curso de contabilidade. Ela já trabalhava num posto de saúde, longe como a caverna do diabo. Era como aquela canção do Zé Geraldo: quatro conduções, duas pra ir, duas pra voltar. E ela saía cedo de casa, viu? Depois do trabalho, ia para o curso de contabilidade. Eu, talvez com uns 7 ou 8 anos, já sabendo o horário que ela voltava, ia para a calçada de casa. Ficava ali, em minha ansiedade infantil – que depois se tornaria uma ansiedade incontrolável – esperando-a aparecer lá na esquina, em seu caminhar cansado, porém sapeca, serelepe. Claro, estava dando duro, o melhor dela, não? Estava mesmo animada.
Quando eu a via, meu coração disparava, então corria e me pendurava nela. Nessa idade como poderia imaginar o esforço que ela devia fazer para me sustentar, a mim, e a minha felicidade de vê-la? Não podia.
Tudo isso durou um tempinho: lá ia ela, bem cedinho, decidida, animada, e depois, lá vinha ela, decidida, feliz. Aí, parece, meu pai começou a ficar com ciúmes. É o que dizem. Não posso afirmar. Essa coisa fica na minha cabeça. Foi isso, foi aquilo, aquilo outro? Não sei, não sei, não sei. O que sei é que ela parou com o curso. – Contando isso para uma amiga, ela me perguntou: “o que ela teria sido se tivesse seguido com o curso, hein? – Não sei, é tudo tão turvo. É fato que um grande escritor tem de ter clareza, clareza e mais clareza em seu estilo. Quer dizer, apreender a ordem do caos sem perder a sua desordem, mirar o olho do furacão sem desligar-se dos seus estragos à volta. Mas não sei se, em casos assim, consigo essa clareza. Enquanto mais turvo, mais claro parece pra mim, entende? pois me sinto escrevendo de dentro daquele redemoinho. Nem sei se algum dia saí dele. E isso muda o quê, exatamente?
Já me perguntei algumas vezes qual a razão de me manter escrevendo e sempre que me faço essa pergunta ou fico em silêncio ou, sei lá, tenho várias respostas, todas diferentes. Já me perguntei se escrevo para remendar o passado, mas aprendi com o tempo que não, pois sei que a ficção não modifica o passado, na verdade, ela cria outro passado, outro tempo, o tempo da ficção. e não tornamos as vidas impossíveis em possíveis, não, apenas criamos outras vidas impossíveis.
Enfim, estava aqui com meus botões e devaneios, em meio a esse calor impossível, e lembrei-me de minha mãe – quem lê meus textos sabe o quanto escrevo sobre ela – e ela veio com a calça marrom de sempre – gostava daquela calça. Caía-lhe bem - Vinha em seu passo cansado e ao mesmo tempo serelepe. Como disse, foi a única vez que a vi assim, feliz. Até onde posso dizer.
Enfim, foi o que restou: com a minha escrita, eu trago, ou tento trazer, não aquele momento, mas, como disse, um tempo novo. Sim, vou criando versões dela, da minha mãe. Mantenho-a vindo, vindo para mim. E até hoje, deus, ainda me dá uma vontade louca de pular em seus braços. Aqueles mesmos braços que adormeceram definitivamente, sobre ela, inertes e frios, sem mais possibilidades de abraços.
Comentários
Postar um comentário