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O ano novo de novo

O cheiro de peru assado. A cozinha quente feito o inferno. Minha mãe com o penteado e as unhas feitos. As luzinhas no tedioso acender e apagar numa indecisão colorida. A velha árvore de natal sucumbindo sob o peso dos anos. Minha roupa nova apertada feito as minhas inseguranças. A etiqueta me inquietando feito o beijo da menina da esquina.
A três em Um esperando a deixa. A alegria das minhas irmãs. Como sinto falta daquela alegria das minhas irmãs. Foi nisso que pensei quando entrei no furacão. É nisso que penso quando me perco. Minha irmã mais velha como um tipo de mãe sobressalente, minha irmã do meio me ensinando ironias, e a mais nova arrastando-se pela sala feito uma boneca triste.
Meu pai, vermelho: este era o sinal de que já dera algumas bicadas na água que passarinho não bebe, ria como uma hiena. Sua alegria, todo final de ano, soava como acordes de um violão desafinado. Eu tinha, como sempre, vontade de ir embora. Pegar um trem, sei lá, um avião, ou atirar-me num lago, Que tristeza pegajosa era aquela. Como sobreviver ao fim do mundo e ao começo do outro em apenas um dia? Queria mesmo pegar uma estrada. Queria logo terminar de ler On The Road, queria ser Kerouac. Queria. Era um querer querendo.
Só me sentia feliz, aliás, só conseguia sentir a felicidade das minhas mãos quando no corpo da menina da esquina. Saliências e fendas feito uma partida definitiva. Um tiro doce no ouvido. Que solidão, Deus. O final do ano é como a vitória do diabo. Seu tridente afiado perfurando as costelas dos sonhos.
Quem comeu a coxa do peru? Minha mãe, em seu penteado já desgrenhado, gritava da cozinha. Silêncio. Deus, quem comeu a asa? Ela insistia. Eu, arrotando azeitonas, sufocado em minha roupa apertada, esperava um réu confesso. Nada, nada. Os namorados das minhas irmãs rodavam pela casa perseguidos pelo olhar de esguelha do meu pai. Ele já havia tirado a gravata, e a pança explodia na calça.
Então, vinham os fogos abafando os nossos sonhos ressabiados. Brindávamos ao ano, antecipadamente, perdido. Ríamos feito condenados com as penas atenuadas. Mas era isso. Depois Girl estourava na Três em um, e, gemendo, sibilando doído como o Paul na gravação, eu pensava na menina da esquina que um dia casaria com o futuro farmacêutico e nunca mais falaria comigo. Mas estávamos acostumados. Todo o ano novo já vinha com ares de velho. Tudo era o que foi. Estávamos acostumados, já disse. Depois minha mãe fechava as portas, soltava o cachorro e deitava-se feito a ruína de um império. Sempre chovia no dia seguinte. Talvez fosse Deus se desculpando. Ele e suas lágrimas de crocodilo.

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