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Os livros

De início, me interessei pelos livros, não necessariamente, pela leitura. Gostava de tocá-los, de ouvir o ranger das páginas em meus dedos - quase um sussurro - o cheiro, a textura. Também gostava de olhá-los: de frente, de trás, de lado, e por aí vai. As letras eram como formiguinhas congeladas nas folhas. Eu sabia que aquelas coisinhas pretinhas, juntas, formavam significados, sentidos. Davam nomes às coisas, às pessoas. Falavam da vida, da morte. Mas eu ainda não as entendia, eu só sabia disso porque o meu irmão mais velho lia para mim. Era como se ele puxasse com os olhos todas aquelas coisas lá dentro do livro. Como disse, eu apenas queria tê-los, vários, tantos, muitos, todos. Era um tipo de namoro sem segundas intenções, entende? Não me importava o gênero, ora, não sabia nada disso. Os livros para mim eram apenas livros e eu os queria. Queria-os em minhas mãos. Gostava dos desenhos, dos mapas, de tudo.
Quando ainda muito pequeno e ainda sem saber ler, vejam, tive a minha primeira enciclopédia de uma série de muitas e muitas outras. Tinha o prazer de guardá-las, bem arrumadinhas. Quando minha mãe limpava a estante e desarrumava tudo, eu logo ia lá e reorganizava-os. Deixava novamente tudo bonitinho.
Então, veio a leitura. Não me lembro dos primeiros textos, quais foram exatamente, mas lembro-me muito bem do susto. Foi um susto o que senti quando comecei a ler. Então, posso falar assim sobre isso ou aquilo? Posso denominar assim as coisas? Há também a vida sobre e sob a vida? Posso rodar o mundo em apenas alguns dias? Qual é mesmo o tamanho do mundo? Foram muitas perguntas. Fiquei espantado. A descoberta do mundo é mesmo um baita de um susto. Havia, enfim, uma porta de saída quando a vida se tornasse impossível. Havia muitas outras coisas.
Quando já dominava a língua, era – e acho que ainda sou – fascinado pelas Seleções. Esta, era uma revista mensal que reunia os textos de sucesso de alguns dos principais jornais do mundo. Narrativas sobre países exóticos, longínquos. Sobre povos e culturas muito diferentes da minha e que me fascinavam. Falava de conquistas e derrotas. Por diversas vezes subi ao Everest com Hillary e Norgay. Com Carter entrei na tumba de Tutancâmon. Estive no aparecimento de utensílios de pedra, há 2,5 milhões de anos, aquilo que marcou o primeiro passo no desenvolvimento cultural humano. Acompanhei a construção do Martinelli, em São Paulo, e corri ao lado do primeiro vencedor da Tour de France. Eu passava as tardes sob a sombra doce de uma imensa mangueira lá no quintal de casa. Ficava ali, com os olhos dentro das páginas, em meus sustos, vislumbres e choros. Há tantas vidas no mundo. Como podemos vivê-las? Uma vida só não basta? Perguntava-me logo que fechava o livro e olhava sisudo para o horizonte sisudo. Ia jantar com nomes de países em minha cabeça de menino. Eu estava à mesa, ali com os meus pais e irmãos, diante da sopa, mas era como se me encontrasse em uma expedição no terrível Mar de Hoces ou no cruel deserto salgado de Danakil.
Ainda tenho um fascínio pela beleza do livro. Ainda toco neles como se, em minhas mãos, trouxesse a lâmpada do Aladim. Ainda dou beijos neles assim que os adquiro. É um gesto místico e lânguido. Como um padre num ritual, um amante flertando com o perigo, um sopro divino e terreno. Ainda tenho as minhas Seleções, sabe?, todas elas, envelhecendo comigo. Quanto as minhas perguntas, hoje, são outras e talvez mais complexas. Mas isso não quer dizer que consegui decifrar as primeiras. Bom, o fato é que não estou mais interessado em contrariar a esfinge. Não mais. E para quê? No curso da minha vida aprendi que o grande barato não se encontra nas respostas. Leio pela possibilidade de fazer perguntas melhores. Bem melhores, sempre. E basta. Pois "o mundo é um grande saco de sal. Come-se um pouco dele todos os dias, se conseguir". Era o que dizia a minha vó. E boto muita fé nisso.

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