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Só tenho o presente e olhe lá.

Nunca vou esquecer o que aconteceu. Tenho total consciência do que passei, passamos, sim, foi duro de roer – estamos roendo e parece que vamos roer ainda um bom tempo – mas não aguento mais escritos sobre a pandemia, Sei lá, encheu, deu. Aprendi? Aprendemos? talvez, talvez. Se sim, beleza, se não, gavião. O mundo nunca me pareceu melhor, nunca me pareceu menos violento. Afinal de contas, na Idade Média, os caras se matavam e se comiam. E hoje é diferente? Estou cada vez mais pessimista e não vou lamentar por isso até que alguém me apresente um motivo contundente para que eu não o seja. Duvido.
Bom, não quero me alongar, a coisa tá feia. Não, não tenho esperança. A minha cota num tá na reserva, acabou. O meu sperare, tikvah ou elpis, como queira, já não aguarda. Meus olhos há muito não ondeiam nas águas do futuro. Vivo o presente, pois isso, bom ou ruim, é o que tenho. E sei que o tenho até o momento em que termino de pronunciar a palavra presente, pronto, já foi.
É isso mesmo, tudo isso para dizer que não aguento mais nada relacionada à pandemia, texto nenhum, nada. Até meus poemas eu os deletei sem pena. Todos eles com ou sem álcool em gel. No começo era tão lindo, não? Olha só, estou engajado nisso, pensava.
Sim, já disse, a maioria esteve junto, cantamos nas varandas, conversamos mais, on-line que seja, sonhamos mais, maratonamos séries e mais séries, inventamos coisas e nos reinventamos, testamos a nossa paciência, a nossa saúde, o nosso corpo, os nossos medos, a nossa...esperança, que seja. Até fizemos mais sexo – fizemos? – sim, sim, sim, mas foi duro de roer, já disse. Num consigo nem olhar para as séries que maratonei durante a pandemia. Passo por elas na interface da NetFlix, como quando encontramos um chato na rua e mudamos de calçada. Na verdade, cancelei a NetFlix. Também não consigo ouvir as músicas que foram lançadas naquele tempo – naquele tempo? – cruel. Me dá um troço e logo coço a orelha porque penso que a coisa ainda está ali a me tirar o ar, a me tirar a paciência, a me tirar o rosto. Lembro-me que quando, enfim, pudemos tirar a máscara, um amigo passou por mim e não me reconheceu. Também, né?
Quando vejo alguma coisa que tem a ver com a pandemia, logo lembro-me dos ovos que eu lavava, um a um, logo ao retornar do mercado. Dos meus sapatos lá fora, no tapete da entrada, tão perdidos e desmotivados quanto eu. E as ruas vazias como as ruas do fim do mundo. Foi um fim do mundo. Não foi, tá sendo. E então começam a jorrar textos e mais textos, livros e mais livros. Estão lá, nas livrarias, nos sebos, nas calçadas, na internet, Deus. Mas não dou trela. Não dou. Olho para o chão que piso. Só. E depois sigo.
A ideia de que esse momento faria o ser humano olhar mais para o outro. A ideia de lição pela dor, pelo sofrimento. Nada. Muitos acreditaram nisso. Fazer o quê? O que é água é água, o que é terra é terra, o que é lama é lama. As vacas continuam pastando, os cachorros continuam latindo. E a pobreza assola. Nada de novo no front. E nos tornamos melhores depois da Gripe Espanhola? Nada. Os golpes estão ainda maiores e mais sofisticados, a violência está solta e zombando de todos. O mal, antes uma coisa arrastando-se nas sombras, vem para o claro do dia e sorri com os caninos manchados de sangue. O bom é otário e o sacana é esperto. O mundo é daqueles que chegam primeiro e de preferência derrubando os últimos. Passam por cima de todos e de todas com a satisfação de um crupiê do inferno. E pra isso, vou logo dizendo, não há álcool em gel que dê jeito.
Comecei dizendo que não suporto mais nenhum texto sobre pandemia, e eis-me aqui, escrevendo sobre isso. Sei, hoje não estou nada coerente. Afinal de contas, a coisa ainda tá rolando. É o que dizem. Mas não quero saber. Já disse.

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