talvez eu nem chegue a me aposentar
e este dinheiro que não vejo
que não conto,
fique para as velhas aves de rapina de sempre
as aves e seus olhos imensos de medo
não é assim desde a grande explosão?
que seja!
que seja!
ora!
o que quero mesmo é que minha mãe volte, mesmo depois de morta,
e com seus pés cansados das estradas longas e invisíveis
e com suas mãos de árvores estéreis
encha de espanto essa rotina emperrada
muito provavelmente, se tiver sorte, terei meu nome escrito numa pedra fria e cara.
Meu nome completo, e com um I aos invés de um Y, escrito por um funcionário fracassado,
de gravata torta,
um homem entediado e com halitose.
e o que há de novo nisso, deus?
não é assim, mesmo depois das primeiras pegadas
nas areias brancas, negras, e virgens do mundo?
que seja!
que seja!
ora!
o que me importa mesmo é que meu pai volte, mesmo depois de morto,
e venha me pegar no banco da escola há muito demolida
que me dê a mão calejada e de unhas sujas
e arraste os meus ossos e rugas tristes de tempo
dentro de um uniforme que há muito não me cabe
que minha mãe e o meu pai, mesmo depois de mortos
venham me falar do tão sonhado e inatingível paraíso
e encham de susto bom esta velha vida parada
feito um velho parque de diversões abandonado, longe e sob a chuva
sem mais os gritos e os perdigotos da criança em mim.
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