quando meu pai morreu
foi tanto
que nada senti
mergulhei num branco
alma suspensa
busquei o choro como quem procura água num poço seco
semeei as minhas sementes do não-sentir
em solos ressequidos
depois, tudo veio
aos poucos,
pílulas
um troço que
mói, rói, dói
que logo preciso me encostar,
segurar-me em algo
sentar-me em algum lugar
é nada
que tudo sinto
mergulho em mim
alma apertada
feito meia grossa
que não entra no sapato
não busco o choro
vem por sua conta e risco
e tudo vinga
toda uma existência
em poucos segundos
quando resolvi mexer no baú de Nava, e que é nosso,
entendi. Ele diz: "não sei se sofri na hora.
Mas sei que venho sofrendo destas horas.
A vida inteira".
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